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Quando o segundo turno começa antes do primeiro: interpretação e uso dos cenários estimulados de segundo turno

O que as projeções de segundo turno fazem com o eleitor? Os riscos de transformar uma hipótese em destino, usando a eleição de Goiânia (2024).

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O texto de Luiz Carlos Bordoni tem o mérito de tocar num ponto decisivo da dinâmica eleitoral contemporânea: o modo como a divulgação de cenários de segundo turno pode interferir na percepção do eleitor antes mesmo de o primeiro turno cumprir integralmente sua função. A crítica é pertinente. Quando a disputa passa a ser narrada a partir de simulações futuras, a eleição real perde densidade e o debate público começa a operar sob a lógica da antecipação. O segundo turno deixa de ser uma hipótese e passa a ser tratado como destino provável. É justamente por isso que o artigo acerta ao chamar atenção para o peso político dessas projeções.

Mas há uma camada adicional que precisa ser incorporada ao debate. Os cenários de segundo turno não existem apenas para consumo público. Para as campanhas, eles têm utilidade estratégica real. Servem para identificar onde estão os eleitores potencialmente transferíveis, entre quais candidaturas esses eleitores oscilam e quais barreiras políticas, simbólicas ou ideológicas dificultam determinadas migrações. Em outras palavras, não são apenas exercícios especulativos. São instrumentos para compreender a geografia da persuasão eleitoral.

A eleição de Goiânia em 2024 ajuda a iluminar esse ponto com clareza. No primeiro turno, Fred Rodrigues terminou na frente, com 214.253 votos, ou 31,14% dos válidos. Sandro Mabel ficou em segundo, com 190.278 votos, ou 27,66%. Adriana Accorsi, por sua vez, recebeu 168.145 votos e terminou em terceiro lugar, fora do segundo turno. No segundo turno, porém, Mabel venceu com 353.518 votos, ou 55,53% dos válidos, contra 283.054 votos de Fred Rodrigues, que ficou com 44,47%.

A simples comparação entre os dois turnos já sugere uma dinâmica decisiva. Fred cresceu cerca de 68,8 mil votos entre uma etapa e outra, enquanto Mabel ampliou sua votação em cerca de 163,2 mil votos. Essa diferença de crescimento é muito próxima do contingente de eleitores que havia votado em Adriana Accorsi no primeiro turno, o que torna bastante plausível a leitura de que a transferência desse eleitorado foi um dos fatores centrais da virada. Trata-se, evidentemente, de uma inferência analítica, não de uma identificação individual do voto. Mas ela é reforçada por pesquisa de segundo turno divulgada à época, segundo a qual 73% dos eleitores que declaravam ter votado em Adriana antecipavam apoio a Sandro Mabel no confronto contra Fred Rodrigues.

Esse movimento faz sentido também no plano político como retratado pela imprensa na época. O segundo turno em Goiânia opôs um candidato identificado com o campo bolsonarista, Fred Rodrigues, apoiado pelo PL, a um adversário que, embora não fosse de esquerda, aparecia como a alternativa viável para bloquear sua vitória. Nesse contexto, o eleitorado de Adriana Accorsi, ideologicamente mais distante de Fred, tornou-se o segmento-chave da disputa. O que as pesquisas de segundo turno captaram, portanto, não foi apenas uma oscilação conjuntural, mas a existência de um campo de convergência negativa: eleitores que talvez não tivessem Sandro Mabel como primeira preferência, mas que não atravessariam a fronteira ideológica para votar em Fred Rodrigues.

É exatamente aqui que os cenários de segundo turno revelam sua importância estratégica. Eles permitem às campanhas enxergar, com antecedência, que tipos de alianças tácitas podem se formar no eleitorado, mesmo quando essas alianças não se expressam formalmente em apoios partidários. No caso de Goiânia, essa possibilidade já havia sido diagnosticada durante o segundo turno e acabou confirmada pelo resultado final. A eleição, portanto, não apenas ilustrou a utilidade analítica desse tipo de teste. Mostrou também que, em certas circunstâncias, o segundo turno é menos uma disputa entre dois candidatos do que um processo de realocação de eleitores politicamente incompatíveis com uma das alternativas disponíveis.

O problema começa quando uma ferramenta útil para a inteligência de campanha passa a circular publicamente sem o devido contexto. Dentro de um relatório estratégico, um cenário de segundo turno ajuda a mapear possibilidades reais de expansão. Fora dele, quando transformado em manchete, comentário ou peça de debate público, pode induzir a percepção de inevitabilidade. Deixa de ser instrumento de leitura e passa a funcionar como moldura da própria disputa. Já não informa apenas sobre uma hipótese futura. Passa a sugerir quem é viável, quem é competitivo e quem deve ser abandonado pelo eleitor ainda no meio do caminho.

Nesse ponto, a crítica de Bordoni continua forte. Mas talvez ela possa ser levada um passo adiante. Se a divulgação desses cenários produz efeitos concretos sobre a formação da vontade eleitoral, então a discussão não deveria parar na constatação do problema. A pergunta seguinte é inevitável: faz sentido divulgar publicamente simulações que, embora úteis para a estratégia das campanhas, podem empobrecer a experiência democrática do primeiro turno?

Em tese, a resposta mais coerente seria restringir essa divulgação. Isso poderia ocorrer por autocontenção dos próprios agentes envolvidos, imprensa, campanhas, empresas de pesquisa e atores políticos, ou, em cenário mais improvável, por alguma futura disciplina normativa sobre a exposição de cenários hipotéticos dissociados do pleito imediato. Não se trata de negar a pesquisa, muito menos de diminuir sua relevância. Trata-se de discutir a diferença entre medir uma possibilidade e intervir sobre ela.

No entanto, é difícil imaginar que isso aconteça. Já fazendo a ressalva em relação à possibilidade de uma restrição na divulgação das pesquisas eleitorais ser encarada como censura ou restrição do acesso público à informação de qualidade, a lógica da disputa empurra no sentido contrário. Campanhas querem testar. Empresas de pesquisa querem medir. A imprensa quer antecipar. E o público, frequentemente, consome, com mais facilidade, narrativas binárias do que disputas abertas. Por isso, a tendência é que o segundo turno continue sendo tratado, muitas vezes, como ponto de partida e não como etapa posterior do processo eleitoral.

A eleição de Goiânia ajuda a mostrar, com nitidez, a ambivalência desse fenômeno. De um lado, os cenários de segundo turno foram úteis para captar uma dinâmica real do eleitorado e antecipar um movimento decisivo de transferência de votos. De outro, é justamente essa capacidade de antecipação que torna sua divulgação publicamente delicada. Porque, quando a hipótese começa a organizar a percepção antes do tempo, o risco não é apenas de erro analítico. É de redução prévia do horizonte de escolha do eleitor

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