O desafio de prever o futuro sempre colocou escritores entre a fantasia e a ciência. Alguns autores pareceram adivinhar o que viria, quase como se tivessem uma máquina do tempo do lado da escrivaninha, enquanto outros foram influenciados pelo otimismo de suas próprias épocas.
Abaixo, veja como a ficção moldou a realidade e onde a imaginação seguiu caminhos inesperados.
O duelo entre o medo e o prazer

Dois autores se destacam quando o assunto é o controle da sociedade. George Orwell, em 1984, descreveu um mundo vigiado pelo “Grande Irmão”. Hoje, esse paralelo aparece nos algoritmos que monitoram cliques e dados em aplicativos de música, filmes e séries, nas redes sociais e até em sistemas bancários, usados para analisar riscos e decidir, por exemplo, se aquele pedido de aumento de limite do cartão de crédito faz sentido.

Já Aldous Huxley, em Admirável Mundo Novo, sugeriu que o controle não viria pela força, mas pela distração constante e pelo prazer imediato. É um reflexo da era de redes sociais e entretenimento sem fim, onde o excesso de informação pode paralisar tanto quanto a censura.
Engenheiros da literatura
Alguns nomes foram fundamentais para antecipar a tecnologia física que temos hoje:

- Jules Verne (ou Júlio Verne): Previu submarinos elétricos em Vinte Mil Léguas Submarinas (1870) e a viagem à Lua quando o mundo ainda dependia de cavalos, em Da Terra à Lua (1865).

- H.G. Wells: Descreveu armas de destruição em massa e energia atômica muito antes do projeto Manhattan (quem viu Oppenheimer, sabe) existir. O livro em questão é O Mundo Liberto (1914).

- Arthur C. Clarke: Detalhou o funcionamento de satélites com tanta precisão que as órbitas usadas hoje levam o seu nome. As suas proposições vieram do artigo técnico Extra-Terrestrial Relays (1945), publicado na revista Wireless World. Na ficção, ele explorou conceitos semelhantes em contos e no romance 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968).
Mitos e verdades sobre grandes autores
Muitas vezes, a história distorce o que esses visionários realmente disseram. Dito isso, é preciso fazer justiça a alguns nomes fundamentais.

Dizem que Isaac Asimov não previu a rede mundial de computadores, mas isso não é verdade. Asimov descreveu com clareza um sistema onde qualquer pessoa poderia acessar bibliotecas inteiras sem sair de casa, democratizando o conhecimento. O autor fez isso em entrevistas e em uma coletânea de ensaios chamada de The Roving Mind (1983), na qual consta o ensaio The Computerized World, que aborda justamente a democratização do conhecimento via terminais de computador. A obra nunca chegou a ser traduzida para o português.

Já John Elfreth Watkins Jr. costuma ser criticado por imaginar um futuro com tubos de transporte pneumático. Porém, ele acertou em cheio no comportamento humano. Em 1900, No artigo What May Happen in the Next Hundred Years, publicado na revista Ladies’ Home Journal, ele previu que o cidadão do ano 2000 seria muito ativo e preocupado com o vigor físico, caminhando longas distâncias diariamente por saúde.

Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury não errou ao dizer que os livros sumiriam. Ele estava fazendo um alerta social. Bradbury temia que as pessoas abandonassem a leitura profunda pela rapidez das telas. O que ele previu não foi o fim do papel, mas a crise da nossa capacidade de atenção.
A lição dos visionários
O futuro costuma ser mais silencioso e digital do que as máquinas barulhentas da ficção. No fim, alguns autores acertaram não porque previram o funcionamento dos aparelhos, mas porque entenderam como a sociedade reagiria a eles.








