A inteligência artificial (IA) já integra a rotina de crianças e adolescentes no Brasil, mas a estrutura das escolas não acompanha esse ritmo. O estudo “Só tem no Brasil”, do CER Polo Sebrae de Educação Empreendedora, revela que mais de 90% dos jovens entre 9 e 17 anos usam a internet diariamente. Em contrapartida, apenas 39% das instituições de ensino oferecem acesso à rede aos alunos, e só 30% dispõem de velocidade adequada para uso pedagógico ou de laboratórios de informática.
Essa distância entre o potencial da tecnologia e a realidade escolar é o ponto central da pesquisa. O levantamento reúne dados quantitativos e 21 entrevistas em profundidade com especialistas do setor educacional, de tecnologia e de inovação para orientar educadores, gestores e formuladores de políticas públicas sobre uma adoção crítica e inclusiva da IA.
Gargalos estruturais e a ameaça da “desigualdade sintética”
A pesquisa contextualiza que o avanço da IA ocorre em um cenário de fragilidades históricas. O Brasil investe cerca de 4,2% do PIB em educação, índice abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é de 5,1%. Na rede pública, apenas 71% das escolas têm acesso regular à internet, e menos de 40% possuem conexões que suportam o uso simultâneo por turmas em sala de aula.
A falta de preparo dos professores também representa um obstáculo. Embora 82% dos docentes declarem interesse em aprender a usar a IA, apenas 19% se sentem aptos a aplicar essas ferramentas na prática pedagógica.
Além da infraestrutura, o relatório faz um alerta sobre a “desigualdade sintética”. O conceito descreve a exclusão perceptiva e cultural entre alunos que vivenciam experiências reais, sensoriais e comunitárias e aqueles cujas experiências passam a ser mediadas unicamente por telas, dados e simulações neutras fornecidas por algoritmos.
O desafio duplo
Para integrar a tecnologia com sucesso, o país precisa superar deficiências básicas de aprendizagem. O estudo traz dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF 2024), que indicam que apenas 15% dos adultos brasileiros atingem o nível pleno de letramento, enquanto 27% permanecem no nível rudimentar.
No campo digital, 1 em cada 4 jovens entre 15 e 24 anos encontra dificuldades para compreender instruções em ambientes virtuais. Isso demonstra que ter acesso a dispositivos digitais não equivale a ter capacidade crítica. O levantamento defende que o letramento digital deve caminhar unido à capacidade de interpretação, leitura e escrita tradicional.
Protagonismo humano: as 5 “Forças de Mudança”
A pesquisa organiza as reflexões sobre o futuro do ensino no Brasil em cinco eixos estratégicos, denominados “forças de mudança”:
- Ginga de mestre (Reinvenção do papel docente): O professor deixa de atuar como mero transmissor de informações e passa ao papel de mediador e “designer de aprendizagens”. O estudo ressalta que tarefas automatizadas geram resultados rápidos, mas não garantem aprendizagem real sem mediação pedagógica. João Alegria, secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, observa no relatório: “Quando você realiza uma tarefa com muito uso de inteligência artificial, você chega a um bom resultado, mas não aprende no processo. Quem aprende é a máquina, não você”.
- Educação com flow (Aprendizado no ritmo da era digital): O modelo propõe adaptar as práticas de ensino ao comportamento dos jovens, que já consomem conteúdos sob demanda e interagem com algoritmos. A meta é utilizar plataformas digitais com intencionalidade pedagógica para tornar o aprendizado mais fluido e significativo.
- Escola tá ON (Espaço de experimentação): As instituições de ensino devem atuar como ambientes de teste ou sandboxes. Nesses espaços, estudantes e professores exploram tecnologias de forma segura, com liberdade para errar e criar soluções. Experiências como o uso de IA para projetos ambientais na Escola Lourenço Castanho e o projeto “Deus Ex Machina” em Natal (RN) ilustram essa abordagem.
- Na manha do saber (Repertório e vivência prática): Como os algoritmos tendem a padronizar ideias e respostas, a bagagem cultural, a vivência prática e o repertório humano se tornam os grandes diferenciais criativos. Experiências reais funcionam como antídoto contra a homogeneização dos conteúdos gerados por IA.
- Inovação com sotaque (Tecnologia e políticas com identidade brasileira): O relatório defende o desenvolvimento de soluções locais que respeitem as diversidades regionais. Um exemplo de destaque é a política do estado do Piauí, que incluiu a disciplina de Inteligência Artificial no currículo do 9º ano até o Ensino Médio para mais de 120 mil alunos. No âmbito regulatório, destaca-se a Lei Complementar nº 205/2025 de Goiás, que incentiva soluções de código aberto (open source) e fomento local.
O valor insubstituível da presença humana
Especialistas ouvidos no levantamento alertam que a IA generativa pode atuar como um “doping cognitivo”, razão pela qual exige regulação e uso ético. Para Fabiana Pinho, gerente de Educação Empreendedora do Sebrae Minas, a tecnologia abre caminhos e otimiza rotinas, mas cabe ao educador orientar o senso crítico, a ética, a empatia e a criatividade dos alunos.
Em suma, a pesquisa do Sebrae evidencia que a inteligência artificial não elimina a necessidade da escola nem a figura do professor. Em um mundo cada vez mais automatizado, a interação orgânica, o acolhimento social e a mediação humana passam a ter um valor ainda maior no processo educacional.
A pesquisa completa está disponível gratuitamente no portal do CER Polo Sebrae de Educação Empreendedora
