Avatar de Elson Oliveira

Colunista do PortalGO

Compartilhe

O Portentoso Arranha-Céu!

Uma reflexão sobre pertencimento, tempo e a importância de preservar o que nos forma.

O antigo e o novo Sobradinho: símbolo reerguido da memória e da cultura de São Miguel do Passa Quatro, onde lembranças viram alicerces da identidade local.
O antigo e o novo Sobradinho: símbolo reerguido da memória e da cultura de São Miguel do Passa Quatro, onde lembranças viram alicerces da identidade local.

Sentado no banco da praça, solitário e bastante concentrado, com os olhos fixos em um ponto específico, estava um senhor aparentemente desconhecido. O fato chamou a atenção dos transeuntes. Cidade pequena é assim: todo o mundo conhece todo o mundo. Aqui em Goiás, quando se trata de pessoa estranha ou mesmo quando não se conhece bem a figura, perguntam: “É fidiquem?”.

Alguém se aproximou e puxou conversa. Logo o desconhecido se viu à vontade e começou a desabafar. Coisas íntimas da sua vida pregressa passaram a aflorar, à medida em que o papo progredia.

Dizia-se contemporâneo do Predinho (também chamado de Sobradinho), foco de sua atenção naquele momento. “Como tá bonito agora, depois de refeito!” – dizia, com um sorriso expressivo nos lábios, que denotava sua incontida satisfação.

Contou que nasceu em 1937, no mesmo ano em que esse “Arranha-céu” foi construído. “Sim, Arranha-céu, pelo menos pra nós, contemporâneos da nossa infância”, esclarecia. A cidadezinha era muito pequena, uma simples corrutela. O Largo da Igreja era o ponto central, onde, além da capela, local em que o povo se reunia à espera do padre que vinha de longe para celebrar as missas, só existia uma cruz de madeira, como marco oficial da fundação do povoado.

Fez uma pausa, respirou fundo e continuou com o seu desabafo… “Cresci aqui, correndo pra lá e pra cá e brincando a valer. O Sobradinho era nosso portentoso Arranha-céu. Grande orgulho para todos nós. Era uma alegria sem tamanho quando o dono permitia que nós, meninos ainda, subíssemos a escada de madeira pra visitar o compartimento do segundo andar e olhar pela janela, lá embaixo.”

Contou ainda o nobre senhor que por muito tempo, ali nas imediações, mais propriamente à sombra do Predinho, o local era transformado em praça de brinquedos, onde a meninada se reunia para extravasar. Brincavam de tudo quanto era coisa, até de esconde-esconde. Com as meninas, a melhor brincadeira era a de passar anel. Muito romântica. Além do mais, proporcionava a oportunidade para arranjar namoricos.

Consistia a brincadeira no posicionamento de todos, meninos e meninas, rapazes e moças, sentados bem juntinhos e de mãos postas sobre os joelhos. Um dos participantes vinha com o anel preso nas mãos, fazendo-as passar devagar e de maneira carinhosa por dentro das mãos de cada um dos outros participantes. E dentro de uma delas, normalmente a de simpatia de quem o passava, o anel era deixado discretamente. No final, a pessoa perguntava a qualquer um dos integrantes: fulano, com quem está o anel? Se a pessoa acertasse, era ela quem devia passar o anel novamente; se errasse, recebia um castigo: recitar uma poesia, latir feito cachorro, pular como sapo etc. E aí, quem estava com o anel escondido iria passá-lo outra vez.

Contudo, o que mais emocionou aquele senhor foi o relato marcante de como conheceu o amor de sua vida. Relatou que estavam ambos saindo da adolescência. Ele morava com os pais logo abaixo do Predinho, quase em frente; ela residia também com os seus pais na rua que ficava do lado de cima. Passando pela rua, era só contornar o Predinho para chegar à casa de um ou do outro. Mas havia uma passagem secreta, entre muros, pelos fundos, em que eles chegavam mais rápido. Foram alguns anos nessa peleja gostosa, até que o namoro virou coisa séria, e se casaram. E para encurtar o caso, esse casamento já está beirando os sessenta anos de existência. 

Logo que se casaram, saíram do lugarejo para estudar fora e ganhar a vida. Voltavam de vez em quando, para visitar parentes e matar saudades. Lá longe, era obsessiva a vontade de rever o palco de sua infância: primeiramente, o Predinho; depois, o Poço da Pedra, a um quilômetro do povoado, itinerário que fazia a pé, sei lá quantas vezes ao dia, junto com os companheiros de aventura; o Poço do Jacaré, no Córrego das Vacas, que ficava do outro lado, banhando a corrutela; o Lajeado, no mesmo córrego, porém um pouco mais acima, onde os entreveros com as lavadeiras de roupa aconteciam quase todos os dias, na disputa pelo melhor local; a Chácara do Alcides Pereira, povoada de juritis, inhambus, pombas-do-bando, rolinhas, onde a garotada constantemente armada com bons estilingues fazia a festa, enchendo as capangas; a Tapera do Ermelino, farturenta em goiabas saborosas, vidrentas e crocantes, e em mangas comuns e coração-de-boi de dar água na boca; o cerrado que dava para o Rio Preto e os pés de serra da redondeza, amarelados de gabirobas maduras; o Poço do Olaria do Cipriano, onde não raro e sem muita dificuldade se conseguiam colocar no gancho improvisado de madeira pelo menos umas quatro tubaranas e outras tantas pirapitingas, afora aqueles lambaris gigantes que faziam a pessoa lembrar de uma frigideira no ponto, com a gordura pipocando.

E numa dessas vindas, mais precisamente no finalzinho do século passado, a decepção do visitante foi tamanha que o obrigou a derramar copiosas lágrimas. “Cadê o Sobradinho?” – era a pergunta que brotava solta do seu coração. É que, no local do símbolo histórico, encontrou apenas o vazio de um lote vago entregue ao mato que crescia viçoso, no centro da cidade.

Desolado, dizia a si próprio: “Demoliram o sobrado!… Atropelaram a história do lugar!… Mataram as lembranças do meu povo!… Frustraram as fantasias e os sonhos de muita gente!… Deixaram sequelas no coração das pessoas que edificaram a cidade!… O que haverá de ser de um povo que não tem história para contar?”.

É importante mencionar que depois desse fato, o visitante passou muito tempo sem voltar àquele local. Tudo havia perdido o sentido. Sem o Sobradinho, as recordações de sua infância não eram mais as mesmas, tudo havia perdido a consistência e o brilho. No entanto, com a construção do novo Predinho, majestoso e esplêndido como se apresenta, os sentimentos renascem dentro dos saudosos corações, a vida volta a pulsar com mais vigor e a história finalmente é reconstituída.

Eis que renasce a pérola sagrada!… O companheiro de tantas aventuras maravilhosas, que embalou a vida dos contemporâneos daqueles bons tempos passados, ressurgiu como que num passo de mágica: garboso, opulento, suntuoso e belo!…

A inauguração ocorreu no dia 19 de julho de 2025, por iniciativa do Prefeito e sua equipe, com muita alegria e muita festa. No local deverá funcionar o Centro Cultural Israel Inácio da Costa e a Secretaria Municipal de Educação Iris Rezende Machado. Presentes aos festejos diversas autoridades locais, estaduais e prefeitos de cidades vizinhas, além da convidada especial, Ana Paula, filha de Iris Rezende. Todos recebidos com honraria pelos anfitriões, Prefeito Gilmar Pereira de Souza e a Primeira Dama do Município, Terezinha de Jesus da Costa Souza, sua esposa.

A propósito, o grande e respeitado político goiano, Iris Resende Machado, dizia que o Sobradinho foi o primeiro prédio de dois andares que ele conheceu. Sabe-se que Iris fez parte da história da construção do Sobrado. Ele era jovem, morava em fazenda não muito distante, no município de Cristianópolis, e trabalhava com seu pai em serviços gerais de fazenda, incluindo-se trabalho em olaria e transportes diversos em carros de bois. Como candeeiro, ele ajudou o seu pai a transportar materiais, como telhas e tijolos, para a construção do Predinho, em carro de bois.

No dia 8 de agosto de 2004, em entrevista concedida ao Jornal Opção, quando indagado sobre sua vida na roça, especialmente com que trabalhava, Iris Rezende respondeu: “Com tudo. Tudo que é de roça eu sei fazer bem. Sei desleitar uma vaca, montar um burro bravo, trabalhar no machado, trabalhar na foice. Trabalhei muito na olaria do meu pai. Quando o sol saía, eu, menino de 8 anos, já tinha cortado 700 tijolos”.

A história do Sobradinho registra a sua construção no ano de 1937, pelo Sr. Galdino Moreira Chagas, dois anos antes da inauguração oficial do povoado, ocorrida em 1939. Foi o orgulho do arraial durante muitos anos. Portentoso Arranha-céu, aos olhos dos esperançosos pioneiros do lugar. Era o início da povoação que recebeu a denominação de Patrimônio de São Miguel Arcanjo. Talvez a construção de maior destaque da povoação, despertando a curiosidade dos visitantes, embora outras casas antigas tivessem histórias de sobra para contar. Era uma relíquia do lugar. E a sua demolição aconteceu em 1998, pela Prefeitura, por questões estruturais, devido ao comprovado risco de desabamento.

Avançando um pouco mais na história, antes desse fato a notícia que se tem é a de que até o ano de 1928 havia no local apenas o cemitério, dois ranchos de capim à margem direita do Córrego das Vacas, e uma casa de fazenda à sua margem esquerda. Um dos ranchos pertencia a Antonio Francisco e se localizava um pouco abaixo do Lajeado. Lá o proprietário recebia seus pacientes para tratamentos de homeopatia. O outro ficava mais abaixo, à beira da estrada da travessia do córrego (hoje saída para Cristianópolis), e seu proprietário era Chico Baiança, conhecido rezador de terço e benzedor. Do outro lado do córrego, ali próximo, situava-se a casa mencionada, sede da fazenda de Felipe da Costa e dona Antoninha Responsadeira.

Conta-se que Felipe Luiz de Carvalho, mais conhecido na época por Felipe da Costa, e sua mulher, dona Antônia Pinto de Carvalho, dona Antoninha, teriam adquirido as terras onde se localizava o cemitério, doando-as à Igreja, para então erguer-se ali uma povoação em louvor a São Miguel. E de acordo com as informações dos arquivos da Paróquia de N.S. do Bonfim, de Silvânia, na data de 29 de setembro de 1939 o Patrimônio de São Miguel Arcanjo foi inaugurado com a celebração de uma missa festiva e oficialmente como Bairro da Paróquia de Bonfim, época em que a povoação contava, no máximo, com umas vinte casas.

Esse lugarejo do passado, de tantas histórias, tantas vidas e tantos sonhos, foi elevado à Distrito de Silvânia em 05 de novembro de 1968. Mais tarde, virou cidade, uma linda cidade, desmembrando-se de Silvânia. Foi emancipada em 09 de janeiro de 1988, com a denominação de São Miguel do Passa Quatro, distante 87 km de Goiânia, a capital do Estado.

Newsletter
Receba as principais notícias e atualizações do PortalGO direto no seu e-mail.
Avatar de Elson Oliveira
Recentes
Pesquisa Nexus/BTG mostra Lula à frente no 1º turno e empate técnico com Flávio Bolsonaro no 2º
Pesquisa Nexus/BTG mostra Lula à frente no 1º turno e empate técnico com Flávio Bolsonaro no 2º
Brasil · 1h

Pesquisa Nexus/BTG mostra Lula à frente no 1º turno e empate técnico com Flávio Bolsonaro no 2º

Daniel Vilela aposta em encontros regionais para consolidar pré-campanha
Daniel Vilela aposta em encontros regionais para consolidar pré-campanha
Goiás · 23h

Daniel Vilela aposta em encontros regionais para consolidar pré-campanha

Daniel Vilela destaca investimentos e reforça alianças no Sul de Goiás
Daniel Vilela destaca investimentos e reforça alianças no Sul de Goiás
Poder · 1d

Daniel Vilela destaca investimentos e reforça alianças no Sul de Goiás

Daniel Vilela afirma que seu time político representa o melhor da política
Daniel Vilela afirma que seu time político representa o melhor da política
Blog Eleições 2026 · 1d

Daniel Vilela afirma que seu time político representa o melhor da política

Mais do PortalGO
loterias quina de sao joao loterias 1780083089 | PortalGO
Com R$ 260 milhões, Quina de São João tem apostas até sábado
Sorteio da Quina de São João paga R$ 260 mi e não acumula. Veja prazos de aposta, canais oficiais e regras do concurso especial da Caixa. 27 jun 2026 · Brasil
carreira digio | PortalGO
Partida do Brasil às 14h reacende dúvidas sobre falta no trabalho
Partida do Brasil na Copa em horário de trabalho gera dúvidas. Entenda os limites legais e as recomendações de especialistas. 27 jun 2026 · Trabalho
Imagens 6 | PortalGO
PF conclui que Flávio Bolsonaro cometeu calúnia contra Lula
PF conclui que senador Flávio Bolsonaro cometeu calúnia contra Lula em postagem sobre a prisão Maduro. Relatório seguirá para a PGR. 27 jun 2026 · Justiça
5351896 b71e328e69febf9 e1782511780642 | PortalGO
Tornozeleira de Bolsonaro falha e aciona PM
Tornozeleira eletrônica de Jair Bolsonaro apresentou falha de sinal. PMDF foi ao local e verificou que equipamento estava intacto e voltou a operar. 27 jun 2026 · Justiça
rubio e flavio 1 e1782510625487 | PortalGO
Flávio escreve a Rubio e recebe ‘não’ dos EUA
Flávio Bolsonaro tenta reverter sanções que Eduardo articulou; Rubio nega. Carta americana cita Pix, etanol e oferece diálogo com eleitos. 26 jun 2026 · Brasil
WhatsApp Image 2026 06 26 at 16.05.02 | PortalGO
Prefeitura de Aparecida promove mutirão de saúde
Aparecida promove 10º Mutirão de Consultas Especializadas neste sábado (27). São 743 atendimentos no CEM e Amag a partir das 8h. 26 jun 2026 · Goiás
Sem titulo e1782498283638 | PortalGO
Obra que desafia marketing político ganha nova edição
Relançamento de obra sobre discurso eleitoral e agendamento cidadão ocorre em Goiânia no dia 26. Autor é doutor em Sociologia Política. 26 jun 2026 · Cultura
54962392144 3de3a5b339 o | PortalGO
Flávio Bolsonaro vai à Romaria de Trindade após embate com Michelle
Pré-candidato à Presidência participa da Romaria do Divino Pai Eterno e de encontro com lideranças evangélicas em meio a esforço para manter unidade no campo… 26 jun 2026 · Poder
55357664010 ead43299d8 k | PortalGO
Lula envia Múcio à Venezuela após terremotos
Lula envia ministro José Múcio à Venezuela para coordenar ajuda humanitária após terremotos. 589 mortos e mais de 40 mil desaparecidos. 26 jun 2026 · Mundo
gandr collage 2 | PortalGO
Disputa pela vice ‘deu certo’ para Daniel. Torcida de que ‘vai dar errado’ é que furou
A disputa pela vice na chapa de Daniel Vilela e o papel decisivo de Ronaldo Caiado no xadrez político de Goiás. 26 jun 2026 · Colunas