Quando a filosofia não explica uma coisa, a psicologia se encarrega de dar um sentido, o que é muito melhor para o espírito. Digo isso por sentir. Não me baseio em tratado algum. Lembro da minha tia Divina.
Minha questão nos últimos tempos é que gosto de filmes bobos. Bobos na definição apressada, senão preconceituosa, que se dá a filmes com roteiro previsível, em geral comédias românticas e familiares.
Uma psicóloga amiga me explicou que saber o que vai acontecer me acalma. Lendo e ouvindo mais pessoas sobre o assunto me levou a entender que me apazigua a alma, ao final do dia, uma boa dose de história bonita.
Minha tia Divina classificava as coisas como isso é muito bonito, isso é feio demais, não gosto dessas coisas, me deixa muito feliz em saber, você sabe que nada me deixa mais feliz do que ver você sorrir e dizer que gostou do meu franco com pequi.
Não evolui ainda, se é que em uma vida há tempo para tamanha evolução, a ponto de poder dizer coisas simples por sentir tanta simplicidade dentro de mim e exigir sua contrapartida à minha volta. As complicações são da nossa cabeça. Minha tia dizia.
E são. Gosto de filosofia e teologia e da psicologia de todas as gentes. Política não é outra coisa além de labirintos humanos. Viver é uma sequência d e negociações com outros seres e estares, com uns e todos corrompendo-se nas proposições e nas ações.
Cruel pensar assim? Minha tia resolve tal questão de divinas proporções sem pestanejar. Ela vai no quintal, pega um franco no poleiro e cozinha. O que ela quer? Resolver os dilemas do mundo? Não. Ela quer saciar a fome dos filhos, sobrinhos, quem for. E um sorriso.
As pessoas que esperam apenas um sorriso da gente são as mais beijáveis da existência humana. É um conceito que tenho. A pele áspera da tia Divina, suas mãos carouquentas, só tinham equivalentes no meu tio Urias, marido dela.
Meu tio tinha o canivete dele e o fumo. É um humor próprio. Quem olhava, via um bigode e uma cara fechada. Quem só reparava, enxergava um homem de sensibilidade fina. Tinha lá seu jeito. Mas tinha o coração que só ele e minha tia conheciam. Eu avistava pelo buraco da porta.
Todas as filosofias estavam na casa deles o tempo todo. Eu tentei várias vezes que falassem das encruzilhadas, provocava discussões homéricas. Eles sorriam, claramente maravilhados com aquele menino que sabia tão pouco da vida. Eu.
Carrefour essa propensão às complexidades. Não penso que eles não são complexos. São sábios como eu não sou. Como eu seria, se chegasse a tanto. Eles são uma mistura de ápice de uma civilização que seria não algo superior, mas original é essencial e maravilhoso porque simples.
Simples no ser, simples no sentir e simples em se deixar notar, perceber, sentir, ser. Veja como o círculo se fecha. Sempre o ser. Sempre a gênese contida na divina nomeação das coisas. Tia Divina existe no “meu filho, vive e muito bonito”, e em nenhum outro lugar.
Quando estamos tristes, para onde ir? Quando estamos apaixonados, onde enfiar a cara? Quando a vida é pouca, que direção seguir? Em sua travessia, tia Divina não tinha pressa de chegar. Porque o tempo dela não era partida. Era permanência.
Como leio livros, vejo filmes, contemplo as imanências e percorro as intermitências e as vastas camadas do intangível, vou até a casa da tia Divina pra rever seu acolhimento. Ela nunca está fora. Um romance de formação é uma bíblia aberta.
Ela está de vestidinho cinza, chinelo e um contentamento em me ver que nem eu tenho ao me encontrar no espelho. Não faço cerimônia. Peço logo um café e deixo acontecer. O caldo dela não tem explicação de tão gostoso que é. E eu sou junto, sem tergiversação.
