O cenário diplomático entre Brasil e Estados Unidos ganhou novos contornos de tensão nesta terça-feira (21). Durante viagem oficial à Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo brasileiro poderá adotar medidas de reciprocidade após a administração de Donald Trump solicitar a saída de um delegado da Polícia Federal (PF) do território estadunidense.
O servidor em questão atuou diretamente no processo que levou à breve detenção do ex-deputado e ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, na Flórida, na última semana. Para o governo brasileiro, a movimentação de Washington é vista como uma interferência externa em assuntos de cooperação policial.
O impasse entre PF e Departamento de Estado
A controvérsia tornou-se pública após o Escritório para Assuntos do Hemisfério Ocidental dos EUA publicar uma nota oficial na rede social X. No comunicado, o órgão acusa o delegado brasileiro de tentar “contornar mecanismos formais de cooperação jurídica” e utilizar o sistema de imigração norte-americano para fins de “perseguição política”.
Lula, por sua vez, reagiu às acusações com um tom de firmeza institucional. “Se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o deles no Brasil”, declarou o presidente. O mandatário reforçou que o país não aceitará o que classificou como “ingerência” ou “abuso de autoridade” por parte de agentes estrangeiros.
O histórico de Alexandre Ramagem
Alexandre Ramagem, figura central no imbróglio, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 16 anos de prisão. A sentença refere-se à sua participação em uma tentativa de golpe de Estado e organização criminosa armada. Após a condenação, o ex-parlamentar deixou o Brasil e passou a residir nos Estados Unidos, sendo considerado foragido pela Justiça brasileira desde dezembro de 2025.
Embora tenha sido preso pelo serviço de imigração em Orlando no dia 13 de abril, Ramagem foi solto dois dias depois. A Polícia Federal defende que a detenção foi fruto de cooperação internacional, enquanto o Departamento de Estado americano agora alega que houve desvio de finalidade nos trâmites realizados pelo delegado brasileiro.
Reciprocidade
A aplicação do princípio de reciprocidade é uma ferramenta comum nas relações exteriores, onde um Estado aplica ao outro o mesmo tratamento recebido. Caso a expulsão do delegado seja mantida sob os argumentos de Washington, o Itamaraty e o Ministério da Justiça podem rever a permanência de oficiais de ligação estadunidenses em solo brasileiro.
Até o momento, o Ministério das Relações Exteriores não detalhou quais funcionários dos EUA poderiam ser alvo de medidas equivalentes. O episódio marca um dos momentos de maior atrito direto entre as gestões de Lula e Trump desde o início do ano.
