O governador Daniel Vilela (MDB) tem a oportunidade, com sua reeleição no 1º turno, de escrever a nova História política de Goiás.
Ser o filho do ex-governador Maguito Vilela, ou ser o protagonista dos novos tempos no Estado? Nenhum demérito ser filho de Maguito, que tem seu lugar escrito e consolidado.
Mas nenhum mérito passar pelo governo sem deixar marca, e ser o passado de um momento decisivo para o Estado: o início de um novo ciclo político.
Daniel foi eleito dentro de uma circunstância. A partir de uma costura política de Ronaldo Caiado e Iris Rezende.
Fez bem sua parte consolidando-se como sucessor natural de Caiado. O apoio de um governo com mais de 80% de avaliação positiva e o fato de ter sido um candidato diligente completaram a equação.
Mas é a partir da confirmação da vitória que Daniel Vilela mostrará o seu valor pessoal, com seu toque particular no exercício do poder. Será ele no governo. No comando, com bônus e ônus.
Ao MDB está posto o desafio de se reconciliar com a sua história, iniciada com a chegada de Iris Rezende ao governo, na redemocratização do País.
Esse processo passa por Maguito, Iris e dezenas de outros nomes que construíram o partido nas disputas e nas gestões. Não será fácil. Porém, necessário para projeto de longo prazo.
Envolve resolver passivos delicados, repletos de nuances e pontas soltas. Como a ida de Ana Paula Rezende, filha do casal Iris, para o PL.
Superar isso é fundamental. Uma coisa é o rompimento MDB-Ana Paula. Outra, a cisão MDB-Iris. Não há razão (quem tem mais?) em jogo. Há um legado que é de todos, mesmo na adversidade.
A campanha que elegeu Daniel foi MDB na veia, para onde convergem essas diferenças. E Ana Paula foi MDB em movimento, ao fazer a campanha que Wilder, um nome sem vento nem documento, não fez.
Tudo deu certo para a vitória. Ganha quem erra menos. Lei da selva política.
A comunicação de Daniel provou-se competente. Impecável no foco e no resultado. Definiu um rumo, estabeleceu uma narrativa e firmou pé.
Peças de publicidade do governo no início do ano e na transição de governo Caiado-Daniel em abril antecipavam a estrutura conceitual da campanha. Seguir em frente com segurança.
E acrescente-se o entusiasmo do MDB velho de guerra. Enquanto a comunicação fazia seu voo, os emedebistas iam a campo.
Sem barulho, sem buscar visibilidade na frente da campanha, de olho na ocupação do governo depois. Ciente de que seria questão de tempo. E de reeleição.
O MDB fez com gana o que sabe, e que fazia por Iris e Maguito. E que fez por Sandro Mabel na eleição para a Prefeitura de Goiânia, em 2024.
Foi pro povo. Para o chão da campanha. Na mobilização e no contato com as pessoas, as lideranças, quem precisasse. Na ação pragmática do corpo a corpo eleitoral.
Foram também os comissionados do governo, por ordem dada e ordem cumprida. Era isso ou nada. A ação funcionou.
O alvo era o eleitor indeciso, e aqueles sem firmeza no voto (o voto útil). Eles dariam a diferença para a vitória no 1º turno. E deram.
O momento mais delicado talvez tenha sido o da transição de governo, em abril. Não poderia ter erro. Para não melindrar Caiado. Para não dar razão aos opositores, que esperavam o desastre: Daniel fracassar e o governo explodir. E não teve erro.
Erro houve na finalização das conversas para escolha do vice e dos candidatos ao Senado, em julho.
Um quase-problema fatal, por condução descuidada. E não foi de Daniel. As negociações com aliados demandaram paciência e força, até a solução pela força.
Força imposta pela mão do governador-candidato. A definição do evangélico Luís do Carmo na chapa como vice não foi negociação.
Para Daniel, não houve desgaste. Para Caiado e Gracinha Caiado, sim. E cresceu com os problemas surgidos na candidatura de Caiado a presidente.
A mais complicada: críticas a Flávio Bolsonaro, tirando de Gracinha o eleitorado bolsonarista para o Senado. A reversão do desgaste custou suor e mobilização.
Daniel Vilela fez campanha moderna mas também do jeito tradicional. Ao DNA do MDB somou tecnologia: os novos tempos das redes sociais e da linguagem digital.
A saber: o MDB volta ao poder no Estado, mas para quê? Para dar orgulho ao seu passado, construir o futuro e orgulhar os goianos? Ou para ocupar cargos no governo e espaços de comando político nos municípios?
Quer poder só para hoje, ou para longe nos anos? Quando esteve no Palácio das Esmeraldas, ficou 16 anos, e os feitos são cantados em verso e prosa.
A juventude de Daniel é prenúncio de longevidade no poder. Mas não é garantia de poder perene. O cálculo será decisivo.
Junto com a capacidade de ser governador na História, é preciso estar alinhada a de ser líder que permanece na memória e no coração das pessoas.
Junto com as obras e benefícios prometidos na campanha, é fundamental que se cumpra a expectativa do exercício real dos valores e propósitos humanos.
Alteridade, sensibilidade, bondade, espírito público, espírito republicano e democrático. Tudo isso importa em equilibrada medida da competência da gestão e das realizações físicas.
Fazer História não é riscar o chão de Goiás com feitos mensuráveis. É ser imensurável nos atos, nas atitudes e na inspiração. Sobreviver ao sol e à chuva do cerrado.
É ser referência de grandeza como líder. Não é trair a confiança e a fé depositadas nas urnas pelos goianos. Jamais trocar o tempo histórico por quatro anos de brilho efêmero.
Goiás escolheu. Goiás acolheu. Goiás acredita em Daniel Vilela governador. Agora vem a eleição para a História. A que será contada com louvor. Ou como derrota.
Entre o ciclo político que se vai em Goiás e outro que chega para ser construído, a perspectiva de poder está eleita pelos goianos. Reeleita.
Começa o tempo de Daniel. O tempo de Daniel é o futuro. Que não termine antes.
