O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) lança, na próxima segundaterça-feira (6), o segundo volume do livro “Não Consta dos Autos: histórias de magistrados goianos”. A obra reúne 40 crônicas escritas por magistradas e magistrados goianos, além de familiares de integrantes do Judiciário que já morreramfalecidos. O lançamento será realizado às 17 horas, no Espaço Cultural Goiandira do Couto, na sede do TJGO, em Goiânia.
Organizado pelos desembargadores Altamiro Garcia Filho e Itaney F. Campos, o livro é uma iniciativa da Comissão Permanente de Memória e Cultura do TJGO e busca registrar histórias que normalmente não aparecem nos processos judiciais: lembranças pessoais, desafios profissionais, situações familiares, alegrias, medos e episódios que marcaram a trajetória de quem exerceu a magistratura em Goiás.
A ideia surgiu em 2023, quando Altamiro Garcia apresentou ao então presidente da Comissão Permanente de Memória e Cultura, desembargador Luiz Cláudio Veiga Braga, a proposta de reunir relatos sobre a vida de magistrados goianos.
Segundo Itaney Campos, a preocupação era evitar que essas histórias desaparecessem com o passar do tempo.
“Muitos se foram sem deixar qualquer depoimento sobre sua trajetória, suas alegrias e agruras. Ia se perdendo a história da magistratura goiana”, explica o desembargador.
A proposta ganhou o apoio de Luiz Cláudio Veiga Braga e do historiador e professor Nasr Chaul. O primeiro volume foi lançado em 2024, com 57 crônicas e o mesmo número de autores. A receptividade, segundo Itaney, incentivou a continuidade do projeto.
Histórias que vão além dos processos
Mais do queAlém de registrar a trajetória profissional dos magistrados, a publicação procura apresentar ao leitor a pessoa que existe por trás da toga.
Para Itaney Campos, essa é justamente a principal característica do projeto.
“O intuito é desvelar o homem ou a mulher que existem sob a toga, com suas dúvidas, temores, fragilidades e esperanças. O lado mais humano do magistrado”, afirma.
No segundo volume, foram priorizados textos de desembargadores e juízes substitutos de segundo grau que ainda estão na ativa e não participaram da primeira edição. Também foram incluídas novas crônicas de autores que já haviam colaborado anteriormente, além dedos relatos de dos magistrados aposentados e familiares de integrantes do Judiciário que já faleceram.
A diversidade de autores, segundo o desembargador, contribuiu para ampliar o olhar sobre a magistratura e enriquecer a coletânea.
Relato sobreA rebelião no Cepaigo é um dos destaques
Entre as histórias reunidas no livro, uma das que mais chamou a atenção dos organizadores foi o relato do desembargador Gilberto Marques Filho sobre a rebelião ocorrida no antigo Cepaigo, em Goiânia.
O episódio aconteceu durante uma visita ao presídio realizada pelo então presidente do TJGO, desembargador Homero Sabino, acompanhado de magistrados, magistradas e servidores. O grupo acabou sendo feito refém durante sete dias.
Na crônica, Gilberto Marques Filho relata os momentos de tensão vividos durante o período em que permaneceu dentro do presídio.
“Foram momentos de tensão e agonia. Sete dias sem dormir. Para nos alimentarmos, comíamos batata que ficava dentro de um latão”, recorda o magistrado no texto.
Em outro momento, o desembargador conta que foi ameaçado por um preso que havia condenado anos antes, quando atuava como juiz em Trindade. Segundo o relato, o homem o reconheceu e passou a ameaçá-lo enquanto segurava um objeto semelhante a uma arma artesanal.
A situação terminou quando o líder da rebelião, Leonardo Pareja, interveio e retirou o preso do local.
O episódio teve ainda outro momento inusitado: durante o período em que permaneceu como refém, Gilberto Marques Filho trocou o próprio relógio por uma aliança de um dos presos. Segundo ele, a estratégia fazia parte da tentativa de manter uma relação de respeito com os detentos e evitar demonstrações de fragilidade.
O desembargador foi o último integrante do grupo a ser libertado. Depois, foi levado para Cuiabá em um veículo conduzido pelos próprios presos.
Para Itaney Campos, essas histórias como essa mostram justamente a dimensão humana e imprevisível que pode existir por trás do exercício da magistratura.
Memória do Judiciário também é feita de histórias pessoais
A preservação da memória institucional é uma das preocupações centrais do projeto. Para Itaney, documentos oficiais, decisões e registros administrativos são importantes, mas não são suficientes para contar a história completa de uma instituição.
“A história do Poder Judiciário só estará completa e íntegra se se registrar também a história dos homens e mulheres que deram vida à instituição”, afirma.
Segundo o desembargador, as experiências pessoais dos magistrados estão ligadas aos acontecimentos institucionais. Por isso, registrar apenas cargos, datas e decisões não seria suficiente para compreender a trajetória do Judiciário.
Ele compara essas histórias individuais aos pequenos elementos que ajudam a construir uma estrutura maior.
“As micro-histórias também têm relevância na tessitura da grande história, pois as edificações se erguem com suporte em grandes lajes e também com base em pequenos tijolos”, destaca.
Familiares ajudam a manter vivas histórias de magistrados
O Como mencionado anteriormente, o segundo volume também abre espaço para familiares de magistrados já falecidos. A participação, segundo Itaney, teve um significado especial para as famílias.
Os parentes, conta o desembargador, receberam com emoção a possibilidade de preservar no livro a memória de seus familiares.
“Os familiares ficaram sensibilizados e se disseram gratificados, ante a lembrança da inclusão da memória do seu ente querido, já falecido, na coletânea do Tribunal”, relata.
Para ele, manter essas histórias registradas também é uma forma de reconhecer pessoas que contribuíram para a construção do Judiciário goiano.
A iniciativa ganha ainda mais importância, segundo Itaney, diante da passagem do tempo e do risco de que essas memórias sejam esquecidas.
Livro busca aproximar magistratura do público
Outro objetivo da obra é aproximar a sociedade do cotidiano de quem exerce a magistratura.
Itaney Campos afirma que existe uma percepção generalizada de que juízes, desembargadores e ministros são pessoas distantes da realidade cotidiana e pouco expostas a dificuldades pessoais. O livro, segundo ele, procura apresentar uma perspectiva diferente, sem deixar de reconhecer as responsabilidades e prerrogativas inerentes ao cargo.
“O propósito do livro, em instância final, é revelar, ainda que em fragmentos, a humanidade dos juízes e juízas do nosso Estado”, afirma.
A intenção não é apresentar uma visão idealizada da magistratura, mas mostrar que, por trás das decisões e dos cargos, existem pessoas sujeitas a dúvidas, medos, dificuldades e emoções.
Para o desembargador, essa aproximação pode ajudar o público a compreender melhor a complexidade do trabalho desenvolvido nos tribunais.
Lançamento será na segunda-feira
O lançamento do segundo volume de “Não Consta dos Autos: histórias de magistrados goianos” será realizado na segundaterça-feira (6), às 17 horas, no Espaço Cultural Goiandira do Couto, na sede do Tribunal de Justiça de Goiás.
A produção editorial e artística ficou sob responsabilidade da Diretoria de Comunicação Social do TJGO, enquanto a impressão foi realizada pela Divisão de Impressão Digital e Gráfica do próprio Tribunal.
Serviço
Evento: Lançamento do livro Não Consta dos Autos: histórias de magistrados goianos – Volume 2
Data: 6 de outubro
Horário: 17h
Local: Espaço Cultural Goiandira do Couto – sede do TJGO
Endereço: Avenida Assis Chateaubriand, nº 195, Setor Oeste, Goiânia (GO)
Organização: Comissão Permanente de Memória e Cultura do TJGO
Organizadores: desembargadores Altamiro Garcia Filho e Itaney F. Campos
