Vou falar da eleição de 2026 para governador de Goiás. Depois que falar de outras mais antigas. Preste atenção.
Ali no passado
Reta final de campanha é um desafio braçal para militantes e candidatos, mas principalmente uma prova de sanidade mental para quem está dentro e tem a missão de ganhar ou ganhar. O que implica fazer as coisas funcionarem mesmo quando é evidente que não estão funcionando.
Teve um ano, não muito longe no tempo eleitoral de Goiás, em que isso ficou muito claro pra mim. Eu estava dentro, no grupo de coordenação. Era um dos responsáveis por manter firmes e motivadas as pessoas que lideravam as equipes de base.
Urnas se aproximando, as pesquisas teimavam — urnas são assim, rebeldes — em apontar que a expectativa de virada nas intenções de voto era um sonho, e nada mais. O que fazer? Expor a todos a previsão de derrota inevitável, ou deixar a cavalaria avançar, para o prejuízo político não ser maior?
Nessa hora, a campanha não está mais apenas lá fora, na rua. Ela acontece dentro da gente, embrulhando estômago, dando nó na paciência. Há a perspectiva de que a visão esteja errada. Ou que o imponderável possa agir nos últimos dias e minutos, operando milagres. Há. Mas…
Há sempre uma desculpa que buscamos sei lá de onde e que vira motor de automotivação, e que se transforma naquele grito de desabafo que soltamos aos céus e que serve também de impulso para erguer a cabeça e ir em frente. Poxa! Você entendeu.
Não dá para desmotivar equipes em plena campanha. Definitivamente. Por óbvio, sim, mas especialmente por comiseração. O resultado das urnas, por pior que seja, é sempre melhor do que a constatação antecipada e verbalizada da derrota. Ninguém merece.
Perdemos a eleição naquele ano. Estava perdida desde o início. Poderia ser ganha com uma campanha bem feita? Sempre o se. Um somatório de coisas, incluindo um candidato frio, fez com que aquilo que começou ruim, terminasse péssimo. Essa a realidade.
E eu tinha na memória uma outra campanha do meu pai candidato a prefeito. Pesquisas indicavam que, para ele ganhar, teria que fazer coisas que não eram do perfil dele. Uma delas: ser duro com o adversário, pegar pesado nos discursos para desmascarar suas mentiras. Essas coisas. Coisas que nunca habitaram o coração dele. A gente (meus irmãos, os amigos) sabia.
Meu pai foi um ótimo prefeito nas duas vezes em que administrou São Miguel do Passa Quatro. Foi o primeiro prefeito, no nascimento da cidade, e lhe deu rumo. Mas não era bom candidato. Nunca foi. Vivemos uma campanha inteira com a convicção da derrota, ante a motivação da vitória. Sabe o que é isso? Isso ensina com dor.
Goiás 2026
Entre os apoiadores de Daniel Vilela, o que se vê é otimismo exacerbado. Vai ganhar no 1º turno. Entre os torcedores de Wilder, a mesma coisa. Ele está subindo, dizem. Entre os marconistas, nenhuma dúvida: haverá 2º turno e será ele um dos dois na disputa, inevitavelmente.
Nas entranhas dessas campanhas que o sentimento real dá as caras. Claro. Há angústia do lado de Daniel Vilela, porque ele anda perto de garantir de fato a vitória no 1º turno. Mas perdeu fôlego, o que vem tentando recuperar com ações intensas nas ruas e redes. O governo inteiro está em campanha.
Não está fácil como antes. O caminho passou a ter pedras robustas atravancando. A mais flagrante delas carrega uma contradição em si. Caiado é o maior cabo eleitoral de Daniel. No entanto, passou a ser um ruído com potencial de barulho inconveniente no momento em que começou a criticar com força o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
Os ataques de Caiado a Flávio aumentam de tom a cada pegada, e têm ajudado Wilder de forma indireta. Na mobilização interna e, segundo pesquisas reservadas, na subida das intenções de voto.
Até há pouco, era comum encontrar nas qualitativas e em conversas variadas, eleitores bolsonaristas apontando Daniel como seu candidato a governador. Novas pesquisas estão mostrando outra coisa agora: Wilder está absorvendo o eleitor descontente com Caiado. Esse que era de Daniel está na conta.
Os ataques já estavam pesando contra Gracinha, candidata a senadora. Faz semanas isso. Demorou, mas recentemente ela até mudou a estratégia de também criticar Flávio. E passou a investir na propagação de declarações direcionadas ao público bolsonarista. Em Anápolis, esta semana, fez discurso ao lado de Gustavo Gayer prevendo os dois no Senado para votar iguais. Um gesto posicionado na mensagem.
A quatro dias da votação, o enrosco dos governistas com Caiado é o principal fato em andamento na eleição de 2026. O que mais impacta a guerra pelo voto. Os adversários colocam fogo. Veem aí uma oportunidade de tumultuar a linha governista. Torcem para que funcione, já que não produzem nada que possa mudar o curso das coisas. Esperar que o adversário erre bastante é uma ação efetiva de campanha, ainda que no campo da imaginação.
Fora este, há outro fato que pode interferir diretamente na reta final da campanha: os estilhaços da guerra maior no País, entre Flávio e Lula (PT). A polarização já produziu efeitos no Estado. O destino da candidatura de Caiado a presidente é um deles. Veja que na recém-divulgada pesquisa Quaest, Caiado aparece de forma inequívoca atrás de Lula. Isso o coloca em xeque. E pode piorar.
De líder nas intenções de voto no início do pleito, Caiado corre. Corre para não ser derrotado em Goiás para presidente. Corre para não ter surpresa na campanha de Gracinha. Corre o risco, já conhecido e tratado neste espaço, de a vitória com Daniel não ser uma vitória de longo prazo. Lula e Flávio estão mais presentes em Goiás do que Caiado, se consideramos que foi enquanto ele buscava a Presidência fora, que as coisas aqui dentro azedaram e a polarização nacional se estabeleceu.
Só o tempo corre mais do que Caiado. O tempo não perdoa.
E agora?
Tirando os exageros e arroubos das campanhas, Wilder Morais é o que se mostra mais animado de todos. Seus apoiadores estão a mil, embalados em empenho máximo, na perspectiva de que as coisas finalmente começaram a dar certo e que “vai dar certo e vai dar tempo”. Faca nos dentes conta.
Do lado de Marconi Perillo pode-se dizer que prevalece o espírito de animação sob controle. Nem empolgação demais, nem desânimo. Resignação. Resiliência. E campanha com determinação. Sentimento de dever cumprido? Certeza de que as pesquisas próprias é que estão certas?
Onde também se encontra empolgação é no ambiente de campanha de Luis Cesar Bueno (PT). Ele apostou na ‘cola’ de seu nome ao de Lula. E as pesquisas mostram que ele pode ter acertado, terminando com votação surpreendente, na comparação com o que se previa sobre ele no início. Tem potencial de jogar a eleição para o 2º turno, se continuar a crescer. Olha o tamanho disso.
Daniel Vilela conversa em reservado com os petistas. Mantém por perto um eleitorado que tende a favorecê-lo em um confronto direto com Wilder, por exemplo. E mesmo com Marconi. Em paralelo, marconistas e bolsonaristas dialogam, na lógica de que o importante é derrotar Daniel no 2º turno. Daniel faz tudo isso apertando os parafusos da máquina do governo, colocando todo mundo na dança dos bandeiraços. Vai que.
O ânimo e o desânimo são os cabos eleitorais de chegada mais importantes. Contei sobre derrotas em São Miguel do Passa Quatro. Tenho exemplos de vitórias. Perdemos e ganhamos. Como na vida. E muitas dessas vitórias conquistadas na paciência, persistência e fé. Nunca desistimos. Tava difícil, fomos lá e garantimos o direito à comemoração.
Atente às pesquisas. Entretanto, preste mais atenção à alma das campanhas. Ela revela o que o corpo na rua esconde na euforia militante.
