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O quadro de 2022 merece atenção nesta reta final, principalmente pela assimetria que aparece quando colocamos as últimas pesquisas ao lado da urna. Na média simples dos sete levantamentos reunidos na comparação, Lula foi superestimado em cerca de 0,7 ponto percentual, enquanto Bolsonaro, que terminou o primeiro turno com 43,20% dos votos válidos, ficou aproximadamente 4,7 pontos acima da média das pesquisas. Os sete levantamentos apontaram Bolsonaro abaixo do resultado que depois apareceu nas urnas. Isso chama atenção para algum componente comum que merece ser explicado, embora os números, sozinhos, não identifiquem qual foi esse componente. É aí que está a pergunta que considero realmente interessante para 2026: o que pode acontecer entre a última entrevista e a urna, e quanto do eleitorado pode simplesmente permanecer fora do alcance dos levantamentos?

Vejo três possibilidades que podem atuar juntas, e a primeira delas reúne dois movimentos. Ela está nas mudanças dos últimos dias: o eleitor tardio, que chega perto da votação ainda formando sua escolha, e o voto útil, quando alguém abandona uma candidatura menos competitiva e concentra o voto em um dos nomes com maior chance de disputar o resultado. Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes trataram justamente desse problema no artigo Pesquisas eleitorais e mudanças tardias na decisão do voto, publicado em 2024 na Opinião Pública. Os autores encontraram sinais de que indecisos e eleitores de candidaturas menores estavam mais abertos à mudança, e seus resultados sugerem que mudanças tardias são um fenômeno mais do que plausível nas eleições brasileiras recentes. Os números da comparação combinam com essa possibilidade: Simone Tebet e Ciro Gomes aparecem, juntos, cerca de 3 pontos acima do resultado na média dos sete levantamentos. Isso não demonstra para onde cada um desses votos foi, mas é compatível com uma migração tardia de parte desse eleitorado para candidaturas mais competitivas. Vale notar ainda que a conversão para votos válidos, ao excluir indecisos, brancos e nulos, equivale a redistribuí-los proporcionalmente entre os candidatos e, portanto, já embute uma hipótese sobre como eles votam.
A segunda possibilidade é o voto envergonhado. O eleitor já possui uma preferência, mas evita revelá-la numa entrevista, numa conversa ou em determinados ambientes sociais. Essa explicação foi muito discutida em torno de Bolsonaro em 2022 e deve continuar sendo tratada como uma possibilidade, não como resposta pronta para a diferença observada. A terceira, e para mim a mais interessante nesta reta final, está no eleitor que deixou de aparecer nas pesquisas porque não respondeu, recusou a entrevista ou simplesmente não foi alcançado. São situações diferentes, mas com a mesma consequência para a amostra: esse eleitor continua existindo eleitoralmente. Pode ir às urnas, pode ficar em casa, pode votar em branco ou nulo e pode escolher um candidato que nunca declarou a um instituto. A questão central é saber se esse grupo vota de maneira diferente de quem aceitou responder, mesmo entre pessoas com o mesmo perfil demográfico e regional que os institutos usam para ponderar a amostra. Se isso acontecer, a ponderação corrige o perfil da amostra, mas não corrige o voto.
Os próprios números recomendam cuidado antes de colocar toda a diferença de 2022 nessa terceira explicação. Num exercício simples, se Bolsonaro tivesse sido apenas sub-representado nas amostras e os demais candidatos fossem ajustados proporcionalmente para acomodar sua votação real, Lula apareceria superestimado em cerca de 4 pontos, e não nos cerca de 0,7 observados na média. O mesmo exercício preveria um excesso de apenas cerca de 0,3 ponto para Tebet e para Ciro, contra os aproximadamente 0,8 e 2,1 observados. Isso não elimina a possibilidade de um efeito de seleção, porque a realidade é muito mais complicada do que esse cálculo, mas mostra que dificilmente uma única explicação resolve tudo. Mudança tardia, voto útil, voto envergonhado e ausência de determinados eleitores das entrevistas podem ter atuado simultaneamente. Algumas dessas possibilidades deixam rastros mais fáceis de verificar depois da eleição; outras são muito mais difíceis de separar quando olhamos apenas os números agregados. A principal lição de 2022, portanto, está menos em encontrar uma causa única e mais em reconhecer quantos movimentos, dentro e fora do campo das pesquisas, podem separar uma entrevista de uma urna.
É por isso que considero essa comparação particularmente importante para 2026. A disputa presidencial é decidida no primeiro turno quando uma candidatura ultrapassa metade dos votos válidos, e mudanças relativamente pequenas podem adquirir enorme importância perto desse limite. Em 2022, cada ponto percentual dos votos válidos representou aproximadamente 1,18 milhão de votos, tomando como referência os 118,2 milhões de votos válidos daquele primeiro turno. Não sabemos hoje o tamanho desses efeitos em 2026, nem em que direção podem caminhar, e a direção de 2022 não se transporta automaticamente para uma disputa com outra configuração. Eleitor tardio, voto útil, voto envergonhado e eleitor ausente das pesquisas são quatro movimentos que merecem ser observados agora. A reta final ainda contém votos que podem mudar de candidato, votos que nunca foram declarados e votos de pessoas que simplesmente não apareceram nas entrevistas. É nessa parcela ainda pouco visível do eleitorado que pode estar uma parte decisiva da história de 2026.
Nota metodológica: a comparação utiliza a média simples dos sete levantamentos reunidos no quadro, com as estimativas de votos válidos divulgadas pelos respectivos institutos. O exercício sobre a sub-representação de Bolsonaro é uma simulação proporcional, usada para testar quanto da diferença observada poderia ser explicada por esse mecanismo isoladamente.
