A transformação dos indicadores de segurança pública em Goiás nos últimos anos é o ponto de partida de um livro que busca compreender quais fatores contribuíram para as mudanças registradas no estado. Na obra Investimento, integração e inteligência: O modelo de Goiás para a segurança pública — A experiência goiana como referência para políticas de segurança no Brasil, Francisco Silva de Andrade Junior analisa o papel do investimento, da cooperação entre instituições e do uso da inteligência no enfrentamento à criminalidade.
Silva Júnior é ex-policial penal de Goiás, especialista em segurança pública com ênfase em inteligência, mestrando em Segurança Pública pela Universidad Kennedy, na Argentina, e 2º sargento da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF). Atualmente integrante da corporação do Distrito Federal, ele mora com a família em Goiânia e afirma ter acompanhado de perto as mudanças ocorridas na política de segurança de Goiás a partir de 2019.
O estudo nasceu de uma pergunta desenvolvida durante seu mestrado: em que medida um modelo baseado em investimento estratégico, integração interinstitucional e inteligência policial contribuiu para ampliar a capacidade do Estado de enfrentar o crime organizado?
Segundo Silva Júnior, a proposta não é apresentar a experiência goiana como uma solução pronta para o restante do país.

“O objetivo nunca foi apresentar uma fórmula pronta. A intenção foi compreender uma experiência concreta, identificar seus mecanismos, reconhecer seus limites e extrair dela elementos que possam contribuir para outras realidades”, afirma.
Integração entre forças é destaque da pesquisa
Embora a obra seja construída sobre três pilares — investimento, integração e inteligência —, a integração entre as instituições foi o aspecto que mais chamou a atenção do pesquisador.
Na avaliação de Silva Júnior, o investimento fornece estrutura, tecnologia, equipamentos e capacitação. A inteligência permite transformar informações em conhecimento para orientar decisões. Já a integração possibilita que esses recursos e informações sejam compartilhados entre diferentes instituições.
“Se eu tivesse de destacar o elemento que mais me chamou atenção durante a pesquisa, apontaria a integração”, diz.
O livro analisa a aproximação entre Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal, Polícia Técnico-Científica, Corpo de Bombeiros, Guardas Municipais, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Ministério Público e Poder Judiciário.
Entre os instrumentos citados estão a Superintendência de Inteligência Integrada, mesas de situação, operações conjuntas e cursos frequentados por profissionais de diferentes órgãos.
Para Silva Júnior, essa convivência ajudou a reduzir barreiras históricas existentes entre corporações.
“A integração se consolida quando deixa de ser uma exceção operacional e passa a fazer parte da cultura institucional”, afirma.
Queda nos indicadores criminais
A redução de indicadores criminais é um dos principais elementos analisados na obra.
Entre 2018 e 2025, dados da Secretaria de Segurança Pública de Goiás apontam queda superior a 60% nos homicídios dolosos. Também houve reduções superiores a 90% em modalidades como roubo de carga, de veículos, a transeuntes e em estabelecimentos comerciais.
Silva Júnior sustenta que esses resultados não podem ser atribuídos a uma única medida, mas devem ser observados como consequência de uma combinação de fatores.
Entre eles estão investimentos em equipamentos e tecnologia, capacitação dos profissionais, compartilhamento de informações e utilização da inteligência para direcionar investigações e operações.
Novo cangaço
O enfrentamento ao chamado novo cangaço, expressão usada para ataques violentos e coordenados contra instituições financeiras, muitas vezes acompanhados do domínio temporário de cidades, é um dos casos examinados no livro.
Silva Júnior cita dados segundo os quais Goiás registrou 47 roubos a instituições financeiras em 2017. O número aparece em estudo da Polícia Militar de Goiás baseado em dados da Secretaria de Segurança Pública. A série publicada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, no entanto, contabilizou 43 ocorrências naquele ano, diferença que evidencia variações entre bases e metodologias de contabilização.
Nos anos seguintes, os registros dessa natureza despencaram. Dados mais recentes da SSP-GO mostram que o estado chegou a zerar os roubos a instituições financeiras nos últimos anos.
Silva Júnior argumenta que a mudança não deve ser atribuída a uma única operação, mas à ampliação do trabalho de inteligência, ao mapeamento de grupos criminosos e à integração entre diferentes forças.
Um dos episódios relatados na obra ocorreu em dezembro de 2021. Segundo a Polícia Militar, equipes de inteligência identificaram um grupo que planejava atacar uma instituição financeira em Nova Crixás. Os suspeitos foram localizados em uma propriedade rural em Araçu antes da execução do plano.
A operação terminou com a morte de oito suspeitos. À época, a Polícia Militar afirmou que houve confronto durante a abordagem. A corporação informou ainda ter apreendido dez armas de fogo, explosivos e rádios comunicadores.
Para o autor, o episódio exemplifica uma mudança de abordagem, com a utilização da inteligência não apenas para investigar crimes já cometidos, mas também para tentar antecipar ações criminosas.
“Muitas vezes, o principal resultado de uma operação é justamente aquilo que não chega a acontecer”, afirma.
Letalidade policial
A redução dos indicadores de criminalidade, contudo, convive com outro dado relevante para a avaliação da segurança pública em Goiás: a letalidade das forças policiais.
Questionado sobre os índices de mortes decorrentes de intervenções policiais e a transparência das estatísticas, Silva Júnior afirmou que os resultados positivos precisam ser analisados ao lado de outros parâmetros, como controle da atuação estatal, confiança da população e qualidade das instituições. Na resposta, porém, o pesquisador não detalhou a evolução específica da letalidade policial no período estudado.
“Segurança pública não pode ser medida apenas por estatísticas criminais. A percepção de segurança da população, a qualidade das instituições, o controle das ações estatais e a confiança social também fazem parte da avaliação de uma política pública”, afirmou.
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 mostram que Goiás registrou 362 mortes decorrentes de intervenções policiais em 2025, ante 373 no ano anterior. A taxa passou de 5,1 para 4,9 mortes por 100 mil habitantes, redução de 3,9%. Apesar da queda, o índice permaneceu acima da média brasileira, de 3,1 mortes por 100 mil habitantes, e foi o quinto maior entre as unidades da Federação.
A série estatística divulgada pela própria Secretaria de Segurança Pública de Goiás registra 506 mortes por intervenção de agentes de segurança em 2019, 585 em 2020, 611 em 2021, 535 em 2022, 517 em 2023, 373 em 2024 e 362 em 2025. Os números mostram redução nos anos mais recentes depois de o indicador permanecer acima de 500 mortes anuais entre 2019 e 2023.
Ao tratar do tema, Silva Júnior defende que os avanços no uso de inteligência, tecnologia e análise de dados sejam acompanhados de mecanismos de governança, transparência, proteção de dados e controle.
“Um modelo de segurança pública precisa ser eficiente, mas também precisa ser sustentável, transparente e submetido a mecanismos permanentes de controle e accountability”, afirma.
Continuidade das políticas
A pesquisa identifica ainda riscos para a continuidade do modelo analisado.
Um deles é a dependência de respaldo político e institucional. Na avaliação de Silva Júnior, a integração entre os órgãos avançou porque recebeu apoio para se transformar em uma política permanente.
Mudanças de governo e de prioridades administrativas, porém, podem testar a capacidade dessas estruturas de permanecer em funcionamento.
Outro desafio é financeiro. Sistemas de inteligência, tecnologia, equipamentos e formação profissional exigem investimentos contínuos.
A governança das ferramentas de inteligência também aparece como um ponto que precisa evoluir à medida que novas tecnologias passam a fazer parte da segurança pública.
Experiência goiana não pode ser simplesmente copiada
Apesar de apresentar a experiência goiana como objeto de estudo, Silva Júnior ressalta que outros estados possuem características criminais, territoriais, financeiras e institucionais diferentes.
Por isso, segundo ele, a experiência de Goiás pode oferecer referências, mas não deve ser reproduzida de forma automática.
“Eu não apresentaria Goiás como uma fórmula de copiar e colar. O que pode ser replicado é a lógica do modelo e os princípios que o sustentam”, explica.
Entre esses princípios estão a criação de estruturas permanentes de cooperação, o compartilhamento de inteligência, a capacitação conjunta e o investimento estratégico.
Experiência profissional influenciou pesquisa
Silva Júnior reconhece que sua própria trajetória na segurança pública influenciou a construção do estudo.
Por um lado, a experiência facilitou o contato com profissionais e instituições. Por outro, segundo ele, também criou o desafio metodológico de evitar que percepções anteriores orientassem as conclusões.
Para reduzir esse risco, o autor afirma ter buscado fontes e relatos de diferentes áreas do sistema de segurança e Justiça.
Participaram da construção da obra profissionais das polícias Militar, Civil, Penal e Técnico-Científica, Corpo de Bombeiros, Guardas Municipais, Ministério Público, Poder Judiciário, OAB, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal, além de representantes da sociedade civil.
Uma das conclusões que modificaram a percepção inicial do autor foi justamente o peso da integração.
“A pesquisa mostrou com muito mais clareza o quanto ela é estruturante”, afirma.
Com a publicação, Silva Júnior pretende transformar experiências operacionais e institucionais em material para discussão acadêmica sobre políticas de segurança pública no Brasil.
A permanência dos resultados, entretanto, dependerá, segundo o próprio pesquisador, da capacidade de manter investimentos, cooperação institucional, mecanismos de controle e atualização das políticas diante das mudanças na criminalidade e na tecnologia.
