O fogo amigo está pipocando solto nos bastidores da base governista contra o ex-governador Ronaldo Caiado, desde que ficou pública a escolha de Adriano da Rocha Lima para vice de Daniel Vilela.
O dia seguinte na imprensa resume o clima: notícias de insatisfação de aliados, recados indiretos de nomes excluídos, e uma ameaça explícita de abandono da candidatura da ex-primeira-dama Gracinha Caiado ao Senado. Com empenho na eleição de Gustavo Mendanha como primeiro voto.
O “segmento evangélico” mandou avisar que ela pode sofrer esvaziamento de apoio, caso o nome seja Adriano. O que querem dizer é outra coisa: vão abandonar o barco, caso o vice não seja o que querem, Luiz do Carmo.
O Podemos, ligado a Luiz do Carmo, já tinha dado o aviso, ao adiar o apoio a Daniel Vilela durante a sua convenção. Disse que esperaria pra ver quem seria o vice. Daniel não passou recibo. Mas também não reagiu pra reverter a situação.
O movimento de Zé Mário foi mais sutil. Tratou de reforçar na mídia que não pretende ser candidato à reeleição em 2030. Falou para ser ouvido por Caiado, que pode querer voltar ao governo, ou indicar nome seu para uma possível sucessão de Daniel.
Adriano, em entrevista à rádio Difusora, garantiu que não tem nada definido, não é vice, embora possa ser. Não falou como escolhido. Falou como quem quer ser. E a caminho do aeroporto, onde pegaria avião para se encontrar com Caiado em São Paulo.
Vilmar está calado. Em São Paulo. Colado em Gilberto Kassab, vice de Caiado e garantidor de sua possível indicação a vice. Vilmar espera. Age nos bastidores. Não desistiu. Só não explicita seu jogo.
O mais sintomático foi a mudança de tom de Luiz do Carmo nos últimos dias, a partir do momento em que os sinais da escolha apontavam para Adriano.
Luís do Carmo era o mais sereno nos discursos. O mais ponderado. O que sempre repetia que, independente de qual fosse a decisão, estaria junto de Caiado e Daniel. Companheiro inseparável. De repente, parte dele a ameaça mais dura, Gracinha Caiado como alvo.
Prejuízo anunciado para Gracinha com efeito extensivo a Vanderlan Cardoso e Zacharias Calil (PSD), os outros nomes governistas que disputam o Senado.
Um imbróglio de alta contaminação para todos. Com todos culpando Caiado. E em pauta ainda, nos bastidores, uma ação firme para retirada da candidatura de Zacharias. Outra culpa atribuída ao ex-governador.
Caiado fica em São Paulo até a convenção. Volta a Goiás dia 5, para consumar a chapa. Os estertores de agonia e raiva no Estado continuarão até lá, e serão mais observados do que participados por ele.
A guerra é entre aliados governistas. Mas interessa a Marconi Perillo (PSDB), Wilder Morais (PL) e Luís César Bueno (PT). A implosão da linha inimiga é jingle para suas campanhas.
Os inimigos já se armam de “volta da panelinha”, “esgotamento de ciclo”, “fadiga de liderança” e outros motes. Veem na estrutura da máquina governista uma rachadura que pode resultar em quebra de confiança da população e fuga de votos.
Caiado está atento especialmente aos passos de Daniel Vilela. Daniel vai acomodar os aliados? Vai acalmar os ânimos e aparar as arestas? Ou, pelo contrário, vai insuflar as rebeliões?
Não há passo em falso. Há passos calculados. Todos se vigiando. Todos em ponto de bala.
Com torcidas organizadas para confusão X pacificação.
Uma base partidária e de lideranças que, como um vulcão, precisa se decidir da noite para o dia 5 entre a erupção e a sedimentação.
O novo governo de eleitos e partilha do poder, ou o velho cada um por si?
Por mais que Daniel jogue para Caiado o dano solitário da escolha do vice, já que prerrogativa e decisão dele, as consequências (do abalo na base ou de um rompimento com Caiado/Gracinha) vão reverberar nele. Na sua candidatura ao governo.
Depois, no eventual governo eleito, todos preveem problemas sérios. Mas que isso fique para depois – é o cálculo maquiavélico dos mais pragmáticos.
Com a ameaça de retaliação direcionada a Gracinha, o roteiro que se repete é o mesmo que em certo momento minou as relações do MDB maguitista com Iris Rezende e Iris de Araújo.
E que resultou, mais recente, no afastamento de Ana Paula Rezende. Ela trocou o MDB de Daniel Vilela pelo PL de Wilder Morais. Tem sua razão. E assiste a tudo de camarote. No palanque com Wilder Morais e contra Daniel/Caiado.
