Você, leitor, já sentiu que, ao contar uma história, a outra pessoa apenas esperava uma brecha para começar a falar de si mesma? Ou que, ao desabafar sobre um dia difícil, ouviu em resposta que o dia do outro foi “muito pior”? Esse fenômeno tem nome: narcisismo conversacional.
O termo, cunhado originalmente pelo sociólogo Charles Derber na década de 1980, descreve a tendência de indivíduos em direcionar o foco de qualquer conversa para si mesmos. Em entrevista ao PortalGO, o psicólogo clínico e professor Guliver Nogueira explica que essa característica não é um diagnóstico clínico, mas um comportamento cultural observado na sociedade pós-moderna.
A linha tênue entre partilha e egocentrismo
Naturalmente, seres humanos gostam de compartilhar experiências e ser validados. No entanto, o diálogo saudável pressupõe que o foco permaneça no interlocutor enquanto ele expõe a sua ideia.
“Num diálogo, você tem que deixar o foco em cima do outro durante a exposição da pessoa. É como ouvir uma história onde você explora o que o outro vivenciou”, explica Nogueira.
O narcisismo conversacional cruza essa linha quando a pessoa interrompe o fluxo do outro para assumir o protagonismo ou quando, logo após a fala alheia, traz o assunto imediatamente para a sua própria realidade, sem validar o que foi dito anteriormente.
Sinais
Além do óbvio “atropelo” nas falas, existem sinais sutis que denunciam um narcisista conversacional. É possível identificar a partir de um desinteresse visível. A pessoa demonstra tédio e falta de interesse quando não está falando, ao desvia o olhar ou interagir com o celular. O interlocutor parece alheio ao assunto, presta atenção em estímulos externos.
Guliver também alerta para uma postura de arrogância: “ela começa demonstrar uma postura de arrogância, te olha assim de uma forma de cima para baixo, como se ‘ah, que bobeira o que você tá falando’, ou, ‘o que eu tenho para falar é muito mais importante’”.
Em ambientes coletivos, o narcisista conversacional demonstra uma clara dificuldade em manter a dinâmica de conjunto. Em vez de permitir que o diálogo flua de forma equilibrada entre todos os membros, ele tende a monopolizar a interação ao direcionar o discurso para falar de si mesmo para um interlocutor específico, agindo como se estivesse alheio à participação do grupo como um todo.
O peso da era digital
Embora o conceito seja um tanto anterior à internet, as redes sociais potencializaram esse comportamento ao máximo. Segundo o psicólogo, saímos de um modelo cultural coletivista (focado em tradição e grupo) para um individualismo exacerbado, onde cada indivíduo é o protagonista absoluto de sua própria rede.
Essa necessidade constante de reconhecimento público e validação de conquistas molda a forma como as pessoas conversam “ao vivo”, muitas vezes desaprendendo a arte de ouvir.
O custo emocional nas relações
Conviver com alguém que pratica o narcisismo conversacional gera um “apagamento” da identidade do outro. O impacto a longo prazo inclui:
- Sentimentos de desvalorização, invisibilidade e de não ser amado.
- Desgaste severo de casamentos, amizades e vínculos familiares.
- Conflitos constantes e, eventualmente, o rompimento definitivo da relação.
O professor relatou, inclusive, um caso no qual a incapacidade de ouvir — de uma mãe que sempre alegava ter uma “dor maior” que a da filha — resultou no afastamento físico e emocional entre as duas.
Como retomar o equilíbrio
Para quem percebe que está cometendo esse erro, o primeiro passo é a autoanálise e o desenvolvimento de um “instinto de curiosidade” pela vida alheia. “É preciso deslocar o foco de si para o outro, tentando descobrir o que aquela história pode agregar de informação ou diversão”, sugere o especialista.
Se você for a “vítima” do monólogo, existem formas de retomar o controle sem ser rude:
Peça a palavra: “Aguarde só um minutinho que eu te dou a palavra assim que eu concluir meu raciocínio”.
Inverta o foco: Peça a opinião da pessoa sobre o que você acabou de contar. Isso dá a ela o protagonismo de opinar, mas mantém o assunto original na mesa
Hábito cultural vs. personalidade narcisista
É fundamental distinguir o vício conversacional do Transtorno de Personalidade Narcisista. Enquanto o narcisismo conversacional é um hábito cultural reeducável e muitas vezes ligado à carência ou ansiedade, a personalidade narcisista é mais profunda e persistente. O narcisista de personalidade busca admiração a todo custo e pode apresentar comportamentos manipuladores, mentiras e falta de ética em todas as áreas da vida — não apenas na fala.
O narcisismo conversacional, portanto, por ser aprendido, pode ser transformado através da consciência social e, se necessário, do auxílio da psicoterapia para reestabelecer o valor da igualdade no diálogo.
