Tenho poucas lembranças de quando era pequeno, e uma das que o tempo apagou da minha memória, mas me lembraram anos mais tarde, era a de eu atazanando meus primos enquanto eles jogavam o Resident Evil 2 original no PlayStation 1. Segundo eles, eu — com meus 3, 4 anos — chegava de fininho, como quem não queria nada, e apertava o botão Power do console. Como os coitados não tinham um memory card, perdiam todo o progresso. Depois de algumas vezes, eles finalmente me colocaram para fora do quarto e trancaram a porta. Não julgo; hoje em dia, eu teria feito exatamente o mesmo.
A verdade é que a franquia sempre esteve por perto. Eu via meus primos jogarem o 4 (muito antes de a Capcom sequer sonhar com o remake) ou o 6, mas eu nunca jogava porque morria de medo. Só comecei a superar esse receio com Dead Space no PS3, quando já tinha meus 14 ou 15 anos. Mesmo assim, nunca cogitei seriamente mergulhar na icônica franquia dos agentes que lutam contra a Umbrella Corporation.
Até que chegou 2017. Tentei enfrentar meus medos no PC de um primo, mas a família Baker foi terrível demais para mim. Em 2021, ano de Village, consegui deixar o pavor um pouco de lado e testar o game no PS5 desse mesmo primo, mas só fui até certo ponto. Além do medo, me faltava o essencial: a plataforma, porque não tinha um PC gamer ou um console (eu havia parado no PS3).
Corta para 2025. A Capcom anuncia Resident Evil Requiem. Uma história nova, distante dos eventos do 7 e do 8, com uma nova protagonista e o retorno daquele horror claustrofóbico. Agora, com um PC decente em mãos, decidi que era a hora. Comprei na pré-venda e fiz o pré-load. Para tudo se tem uma primeira vez, e a sensação foi quase como sentir o chão sumir sob os pés, mas sem a queda.
Comecei a jogar no dia 27 de fevereiro. Poderia ter finalizado no dia 28, mas fiquei com aquela dó de terminar e deixei o desfecho para a manhã do dia 29. Foi o primeiro Resident Evil que finalizei e posso dizer: é uma porta de entrada excelente. Quem nunca encostou na franquia talvez se sinta perdido, perguntando “quem é Spencer?”, mas nada que prejudique a experiência de quem quer apenas um bom jogo.
A sequência inicial no Hotel Wrenwood é curta, mas transmite perfeitamente o medo de não poder se defender com a nova protagonista. Melhor do que os sustos é a qualidade gráfica — e olha que nem usei as configurações mais altas. O som também merece destaque; jogando de fones, era fácil localizar inimigos. A trilha sonora não é muito presente, mas o design de som preenche o silêncio com os passos e rangidos que vão arrepiar muitos desavisados. Quando a trilha chega, ela chega pra valer.
Os inimigos, principalmente em Rhodes Hill, têm uma diversidade interessante. Acho que o detalhe que mais me chamou a atenção foi um dos zumbis que reclama do barulho. Se você jogar uma garrafa de vidro em outro zumbi, o reclamão vai lá com seu tripé pedestal que segura uma bolsa de sangue e bate neles.
O único ponto fraco, a meu ver, é a otimização. Meu PC está acima do recomendado, mas o desempenho sofreu com quedas bruscas de quadros, principalmente nas sequências com Leon nas áreas abertas da Raccoon City devastada. Em ambientes fechados: 120 fps cravados. Na cidade da RPD (Raccoon Police Department): quedas chegando até os 40 fps. Priorizei o desempenho nos ajustes, mas o problema pode estar no Denuvo, sistema antipirataria que já foi alvo de críticas em remakes passados por consumir recursos da máquina.
Sobre os protagonistas, Grace tem carisma e personifica bem a “síndrome do impostor”. Como uma agente do FBI sem experiência de campo, a ansiedade e a hesitação dela geram uma identificação imediata. Já as sequências com Leon são o oposto: você está na pele de uma máquina que já viu de tudo desde o RE2 e não tem medo de nada, transformando o horror em pura diversão e ação. A parte menos divertida? Talvez ter aracnofobia e enfrentar a Aranha… ah, e ter que lidar com A Garota, que de garotinha não tem nada. Ela aterroriza Grace desde o começo do jogo e simplesmente não há o que fazer a não ser aceitar e ir seguindo. O barulho que os passos dela fazem, acompanhados pelas correntes que prendiam ela, te deixam angustiado com muita facilidade.
O jogo é um prato cheio de fanservice, mas sem exageros. São homenagens que não prejudicam a história de forma alguma. Enquanto eu fazia stream para um amigo no Discord, ele me apontava referências que eu não pegaria de primeira, embora algumas eu já conhecesse por memes ou cortes. Há citações claras ao RE4, inimigos clássicos como versões modificadas do Mr. X e dos Lickers, cães zumbis, a boina da Jill na RPD e até uma chave com as inscrições “JOJO” (uma referência direta a JoJo’s Bizarre Adventure). Tem Hunk, Mãe Miranda e até o vinho Sanguis Virginis da Casa Dimitrescu.
Para quem é novo no gênero, o inventário bastante limitado pode frustrar, mesmo com os espaços extras das pochetes. Os puzzles, por outro lado, são bem tranquilos. Eu tenho que admitir que morri algumas vezes e tive que baixar a dificuldade para o “Casual”. Na minha cabeça fraca de novato, eu queria matar todos os zumbis, quando o segredo era apenas atordoar para poupar munição e evitar que eles mutassem depois.
Por fim, que bom que a Capcom colocou um final “a escolher”. Eu tinha tomado um spoiler do final e quase desisti de jogar, mas felizmente o final canônico é muito melhor e faz mais sentido. Resident Evil Requiem não reinventa a franquia, mas entende exatamente que precisa preservar atmosfera, tensão e personagens carismáticos. Ao equilibrar horror e ação, respeita o passado sem ficar preso a ele.
Para veteranos, um reencontro confortável. Para novatos, uma porta de entrada bem acessível. E, para quem passou anos adiando a entrada nesse universo por medo — como eu —, é a prova de que sempre há tempo para começar.
Nota: 4,5 / 5









