Muito antes de se tornar o espetáculo midiático que é atualmente, o Carnaval já funcionava como um ritual de ruptura e inversão social. A festa, hoje associada à identidade nacional, tem raízes que remontam à Antiguidade. Segundo o historiador Hiram Araújo, autor do livro Carnaval: seis milênios de história, as origens da festa estão ligadas a celebrações agrárias e rituais religiosos que celebravam deuses da fecundidade no Egito e no Oriente Próximo.
Da Antiguidade ao mundo clássico
Estudos históricos sobre festivais antigos apontam que celebrações mesopotâmicas já incorporavam elementos de inversão simbólica de poder. Na Babilônia, cerimônias ligadas ao culto de Marduk previam rituais em que o rei passava por momentos de humilhação pública para reafirmar sua submissão ao divino. Na Grécia, as Dionísias homenageavam Dionísio com cortejos e uso de máscaras. Já em Roma, as Saturnais instituíam um período de liberdade temporária no qual escravos e senhores compartilhavam a mesma mesa.
Cristianismo e a ideia de “carnavalização”
Com a expansão do cristianismo, a festa foi incorporada ao calendário religioso. O termo Carnaval deriva da expressão latina carnem levare — “retirar a carne” — em referência ao jejum da Quaresma. No século XX, o filósofo Mikhail Bakhtin desenvolveu a teoria da “carnavalização” no livro A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento. Para ele, o Carnaval medieval criava uma “segunda vida” do povo, baseada no riso e na suspensão das hierarquias. Já o historiador Peter Burke descreve o período como um espaço de tensão entre cultura popular e tradição oficial.
O modelo europeu
O Carnaval de Veneza atingiu seu auge no século XVIII, virando referência no uso de máscaras que garantiam o anonimato social. Registros mostram que o Senado veneziano já declarava a festa como feriado público oficial em 1296. Na França, o Carnaval de Nice passou a organizar cortejos oficiais em 1873 com a fundação do “Comitê do Festival”. A “Batalha de Flores”, criada em 1876, influenciou modelos festivos adotados posteriormente em todo o mundo.
Do Entrudo às escolas de samba
Diferente do que se costuma afirmar, o Carnaval chegou ao Brasil ainda no século XVII com o Entrudo. Há registros dessa prática em Pernambuco desde meados do século XVI e no Rio de Janeiro a partir de 1641. No século XIX, enquanto as elites promoviam bailes de máscaras inspirados na Europa, o Entrudo era reprimido pela polícia.
A virada ocorreu em 1932, com o primeiro concurso oficial de escolas de samba na Praça Onze, idealizado pelo jornalista Mário Filho. A vencedora foi a Estação Primeira de Mangueira, apresentando os sambas “Pudesse Meu Ideal”, de Cartola e Carlos Cachaça, e “Sorri”, de Gradim. O historiador Luiz Antônio Simas defende que as escolas foram fundamentais na construção das sociabilidades negras no pós-abolição.
Economia e impacto social
No século XXI, o Carnaval se consolidou como um motor da economia criativa. Para 2026, a Prefeitura do Rio de Janeiro estima que a festa possa movimentar R$ 5,9 bilhões e gerar até 70 mil empregos temporários, segundo a 5ª edição do levantamento Carnaval de Dados.
A economista Mariana Mazzucato, no estudo The Public Value of Arts and Culture (2025), argumenta que o investimento em cultura produz efeito multiplicador superior ao de diversos setores industriais. Na Inglaterra, por exemplo, cada £1 investido gera £1,23 em impacto econômico sistêmico.
Uma pedagogia das ruas
Para os intelectuais, escritores e educadores brasileiros Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino, o Carnaval funciona como uma “pedagogia das ruas”, uma tecnologia de ensino que subverte o poder ao apresentar micropolíticas de existência historicamente silenciadas. Mesmo transformado em produto turístico, o Carnaval mantém sua capacidade histórica de tensionar hierarquias e reafirmar laços coletivos no presente.








