A primeira vez que me apaixonei de verdade foi pelas Irmãs Freitas. De cometer loucura. Chegou um circo na cidade e a gente – a turma da rua de baixo, onde eu ainda morava, no alto dos meus dez, doze anos, por aí – não tinha dinheiro pra ir.
Penso até que eu, particularmente, tinha. Meu pai era melhor de vida (como se dizia), mas isso não contava porque o que valia era a aventura em bando. Um bando de meninada.
Em geral, ninguém podia ou queria pagar entrada. Sobrava a alternativa que ouriçava todo mundo: passar por debaixo da lona. Eu lá, junto. Não perderia isso por nada. Nesse dia, demos nosso jeito. Entramos, lógico.
Ana Lúcia e Luciana, as Irmãs Freitas eram a atração principal. Esperar todos os malabarismos e todos os salamaleques foi um suplício, pra mim. Juro. E então elas surgiram, esplêndidas. De um jeito que a realidade não media.
Só a imaginação pra dar conta da dimensão do espetáculo que foi vê-las surgirem sorridentes e afinadas de dentro dos bastidores feito mágica. Desafinado que sou, meu coração, no entanto, batia em tom maior, sem errar a emoção.
Não exagero. Naquele tempo, um circo era uma nave de sentimentos múltiplos, e estar lá, frente a frente à realização de um sonho daquela idade, não tinha céu que coubesse. O tipo de coisa que a vida serve uma vez aos olhos e arrepio da pele.
Meu encanto: a voz, com tal melancolia que na época nem imaginaria ter como companheira de alma. Uma viagem doce, profunda, de uma cantoria que arranca tocos e flores do cerrado que cultivo no peito.
Ainda hoje as ouço cantar e sou capaz de chorar com o riso frouxo. E se, enfim, exagero é porque o que sinto é um exagero de humanidade que anda léguas por dentro e pelas grimpas do que me dá raiz, me faz chão e floresce.
Aquela noite no circo vive em mim. Sou eu. Um dos meus melhores momentos na vida, posso traduzir com segurança, depois de décadas.
Lembro vivamente que no final da apresentação elas conversaram com a plateia. O palco – ou picadeiro, sei lá eu – ficava a um pulo das cadeiras, e eu já tinha pulado pra lá, enternecido, lágrimas descendo, não esqueço.
Em determinado momento, uma delas olhou pra mim e me chamou. Assim, de repente, e eu fiquei paralisado. Ela insistiu. A apresentação tinha terminado, o clima era de fim de show, e algumas pessoas tinham se aproximado delas.
Ela deve ter me visto e ficado espantada com aquela criança suspensa no tempo, olhando sem piscar em sua direção. Perdida, quem sabe. Por isso me acenou. Por isso, até que enfim, me aproximei.
Acho que ganhei um beijo. Logo disso não me lembro bem. Mas quero crer que sim, ganhei um beijo. É isso. Não abro mão de sonhar que ganhei um beijo maternal, carinhoso como o da mais debulhado da face da terra.
Ela também falou alguma coisa. Não faço ideia do que tenha sido. Essa parte não dá nem pra imaginar. Não importa. O gesto, a cena, o palco está elevado na alma. O resto é pranto sereno.
No final de semana as Irmãs Freitas – Ana Lúcia, Luciana e, agora, também a Ouriana (que voz! Que simpatia!) – cantaram no Viver Sertanejo, programa apresentado pelo cantor Daniel, na Globo. Elas e os irmãos, André e Andrade.
Você viu? Eu vi, ouvi, senti cada segundo. Ouço sempre elas e eles cantarem. Estão na minha lista de frequência regular no Spotify, junto com os podcasts. Ouço bastante, mas cada vez e sempre a melhor vez de todas.
Temos uma plantação de duplas e cantores sertanejos que não falha. As colheitas nunca se esgotam. Mas as Irmãs Freitas são frutos de um cerrado mais fundo na gente. Elas cantam histórias e contam quem somos. Elas nos elevam da superfície.
Bom saber que estamos vivos na melhor tradição caipira. Bom saber que temos a quem puxar e dar de herança. Esta lágrima que cai em sua mão, leitor, é minha, confesso. Ela toca Irmãs Freitas, André e Andrade, Di Paulo e Paulino, Marcus Biancardini…








