Goiás está na etapa final de preparação de um sistema de inteligência artificial que promete tornar mais rápida a identificação de potenciais doadores de córneas. A ferramenta analisa prontuários eletrônicos e pode identificar registros de óbitos entre 15 e 30 minutos após a anotação médica, permitindo que as equipes responsáveis pela captação sejam acionadas com mais agilidade.
O projeto será implantado inicialmente no Hospital de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol), em Goiânia, com o objetivo de reduzir a perda de oportunidades de doação provocada pela demora na comunicação entre as unidades de saúde e a Central Estadual de Transplantes.
A iniciativa conta com o apoio do Governo de Goiás e utiliza a tecnologia desenvolvida pelo Instituto NoHarm.ai. Segundo a médica de família e comunidade Juliana Dias Pereira dos Santos, voluntária da instituição, testes da ferramenta identificaram registros de óbitos em até 16 minutos, enquanto o procedimento manual pode levar horas.
Goiás tem mais de 1,8 mil pessoas na fila por transplante de córnea
A implantação do sistema ocorre em um cenário de alta demanda por transplantes no estado. Em setembro de 2026, Goiás contabilizava 1.851 pacientes ativos na fila de espera por um transplante de córnea. O tempo médio de espera era de um ano e 11 meses.
Dados da Central Estadual de Transplantes, vinculada à Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), mostram que o estado registrou 1.020 novas inscrições na lista de espera em 2024 e 1.024 em 2025. Entre janeiro e setembro de 2026, foram contabilizadas outras 850 inscrições.
No mesmo período, foram realizados 649 transplantes de córnea em 2024, 555 em 2025 e 552 nos primeiros nove meses de 2026.
Diante desses números, a expectativa é que a automatização das notificações ajude a ampliar a identificação de potenciais doadores e contribua para diminuir o tempo de espera dos pacientes.
Como funciona o aplicativo de inteligência artificial
A tecnologia monitora os prontuários eletrônicos dos hospitais e utiliza algoritmos de processamento de linguagem natural para identificar informações relacionadas a óbitos nas anotações médicas. O sistema não depende do preenchimento posterior de documentos de alta ou de códigos de classificação de doenças para reconhecer o registro.
Após identificar um possível caso, a ferramenta envia alertas às equipes responsáveis por meio de WhatsApp, SMS, e-mail e painel de acompanhamento. As informações também são encaminhadas automaticamente ao Sistema Informatizado de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (SIDOAR), utilizado pelo estado.
Com a automatização, a proposta é diminuir o tempo gasto com notificações manuais e permitir que os profissionais responsáveis pela captação e pelo atendimento social iniciem os procedimentos necessários mais rapidamente.
A inteligência artificial também analisa informações clínicas para verificar possíveis contraindicações à doação, com base nos critérios sanitários aplicáveis. Dessa forma, a ferramenta auxilia na identificação de casos que podem ser avaliados pelas equipes especializadas.
Tempo é decisivo para a captação de córneas
A rapidez na comunicação é um dos principais desafios para ampliar o número de doações. A demora entre o registro do óbito e o acionamento das equipes pode comprometer a possibilidade de aproveitamento das córneas.
Segundo Juliana Dias, no modelo convencional, as notificações podem demorar horas ou não chegar a tempo para que os profissionais tomem as providências necessárias.
Além da tecnologia, o projeto prevê atividades de capacitação para profissionais de hospitais, Organizações de Procura de Órgãos (OPOs) e bancos de olhos. A iniciativa também inclui materiais educativos para orientar as equipes no acolhimento e na conversa com os familiares.
A identificação automatizada de um possível doador não significa que a doação será realizada automaticamente. O caso ainda precisa passar pela avaliação dos profissionais responsáveis, e a autorização familiar continua sendo necessária, conforme as regras brasileiras.
Sistema poderá ser ampliado para outros hospitais
A solução foi criada em 2019 pelos irmãos Ana Helena Ulbrich, farmacêutica, e Henrique Dias, doutor em Ciência da Computação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Inicialmente voltada ao cruzamento de informações sobre prescrições hospitalares e à identificação de riscos, a plataforma passou a atender diferentes unidades de saúde. De acordo com as informações divulgadas pelo projeto, a tecnologia já está presente em mais de 200 hospitais e 300 unidades básicas de saúde no país.
Em Goiás, a solução foi selecionada por meio de um edital de Contratação Pública de Solução Inovadora (CPSI), iniciativa voltada ao desenvolvimento e à avaliação de tecnologias para desafios da administração pública.
Após a conclusão da etapa inicial, o plano prevê a realização de um projeto-piloto no Hugol e a posterior expansão para outros três hospitais estratégicos. A proposta também considera a possibilidade de ampliar a ferramenta para toda a rede estadual e, futuramente, permitir sua utilização em outros estados.
A expectativa é que a integração entre inteligência artificial e os serviços de transplantes torne o processo de identificação de potenciais doadores mais eficiente e ajude a aproveitar oportunidades que poderiam ser perdidas por falhas ou atrasos na comunicação.
