O Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) inaugura nesta sexta-feira (19) o Laboratório Interinstitucional de Inteligência Artificial (Lia), iniciativa que amplia a estratégia de transformação digital do Judiciário goiano. Desenvolvido em parceria com universidades de referência, o projeto busca acelerar a criação de soluções tecnológicas, qualificar magistrados e servidores e fortalecer o uso ético da inteligência artificial na prestação jurisdicional.
Instalado na Escola Judicial de Goiás (Ejug) e idealizado pelo diretor, o desembargador Jeronymo Pedro Villas Boas, no Complexo de Juizados do Jardim Goiás, em Goiânia, o laboratório passa a funcionar como um centro permanente de inovação voltado ao desenvolvimento, teste e aprimoramento de ferramentas tecnológicas para apoio às atividades judiciais e administrativas.
A iniciativa reúne o TJGO, a Universidade Federal de Goiás (UFG), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Brasília (UnB), ampliando a cooperação entre o Judiciário e instituições de pesquisa em um momento de expansão do uso da inteligência artificial no setor público.
Laboratório amplia capacidade de desenvolvimento tecnológico do tribunal
O Lia conta com infraestrutura voltada ao processamento de modelos avançados de inteligência artificial. O espaço possui capacidade para receber até 18 desenvolvedores e dispõe de um painel de vídeo formado por oito monitores de 55 polegadas, utilizado para o acompanhamento em tempo real do treinamento e da evolução dos algoritmos.
Embora a inauguração marque o início das atividades presenciais do laboratório, o coordenador da iniciativa, Lucas Camilo da Silva Vieira, em entrevista ao PortalGO, afirma que o primeiro passo do projeto ocorreu anteriormente com o desenvolvimento da assistente virtual Norma.
Criada internamente pela equipe da Ejug, a ferramenta já atende magistrados, servidores e alunos por meio do Ambiente Virtual de Aprendizagem (Moodle), auxiliando na resolução de dúvidas relacionadas aos cursos e programas de capacitação oferecidos pela escola judicial.
Segundo o coordenador, o laboratório surge para ampliar a capacidade de inovação do tribunal e acelerar o desenvolvimento de novas soluções voltadas à atividade jurisdicional.
Parcerias com universidades fortalecem formação de magistrados e servidores
Além da criação de ferramentas de inteligência artificial, o laboratório deverá ampliar a capacitação de magistrados e servidores em todo o Estado.
A Escola Judicial já desenvolve programas voltados ao uso ético e estratégico da tecnologia, mas a expectativa é expandir essas iniciativas para as 118 comarcas goianas por meio dos convênios firmados com instituições de ensino superior.
Um dos principais acordos é o celebrado com a UFG, com duração prevista de 36 meses. A parceria permitirá tanto o desenvolvimento de soluções tecnológicas quanto a realização de cursos, pesquisas e programas de qualificação.
Para Lucas Camilo, o avanço tecnológico depende diretamente da formação contínua dos profissionais responsáveis por utilizar essas ferramentas.
“Não existe ferramenta que faça milagre. O servidor e o magistrado precisam de qualificação constante para que o serviço chegue com excelência ao cidadão”, afirmou.
Inteligência artificial também será aplicada a projetos de impacto social
Além de apoiar a atividade judicial, o laboratório coordenará iniciativas voltadas a desafios sociais.
O principal projeto a receber esse suporte de inteligência de dados é o programa “Virando a Página: Educação e Justiça”. Diferente de uma ferramenta de automação jurídica convencional, o “Virando a Página” nasceu como uma ação de educação itinerante focada na alfabetização e na reconstrução de vínculos sociais da população em situação de rua em Goiânia.
O papel do laboratório de IA nessa iniciativa consiste em fornecer suporte de retaguarda, estruturando o processamento e o cruzamento de informações cadastrais coletadas em campo para gerar relatórios de vulnerabilidade e perfis demográficos, os quais servem de subsídio para o direcionamento de políticas públicas integradas.
A iniciativa reúne o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia) da UFG, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social de Goiânia e a Diretoria de Tecnologia da Prefeitura de Aparecida de Goiânia.
Segundo Lucas Camilo, a complexidade do tema exige articulação entre diferentes instituições e esferas de governo.
“Trata-se de um problema complexo e transversal, que exige a união de esforços entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para garantir a dignidade da pessoa humana”, afirmou.
Governança e proteção de dados sustentam estratégia de IA do tribunal
O avanço da inteligência artificial no TJGO ocorre sob regras específicas de governança tecnológica e proteção de dados.
O laboratório segue as diretrizes da Resolução nº 615/2025 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que estabelece parâmetros para o uso ético, seguro e transparente da tecnologia no Poder Judiciário, além das exigências previstas na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
De acordo com o tribunal, os contratos firmados com empresas de tecnologia impõem restrições ao uso de informações institucionais. O acordo celebrado com a Google, por exemplo, impede que dados internos do TJGO sejam utilizados para treinamento de modelos comerciais de linguagem.
A fiscalização dessas medidas é realizada pelas equipes de Tecnologia da Informação e pela Comissão de Informatização do tribunal, composta por desembargadores responsáveis pela supervisão da segurança digital da instituição.
Transformação digital já produz ganhos de eficiência no TJGO
A inauguração do Lia ocorre em um contexto de consolidação da transformação digital no Judiciário goiano.
Atualmente, todo o acervo processual do tribunal é digital. Os processos mais antigos foram convertidos do papel para o formato eletrônico, enquanto as novas ações já nascem digitais em sistemas como o Projudi e o Proad.
Segundo Lucas Camilo, os resultados desse processo já podem ser percebidos nos indicadores de produtividade da instituição. O tribunal tem mantido saldo positivo entre processos julgados e novos casos recebidos, ampliando a capacidade de resposta à demanda judicial.
Esse desempenho contribuiu para que o TJGO conquistasse, em quatro ocasiões, o Selo Diamante do Conselho Nacional de Justiça, reconhecimento concedido aos tribunais com melhor desempenho em produtividade, gestão e transparência.
Ferramentas de inteligência artificial já integram essa estratégia. A Berna auxilia na identificação de processos semelhantes e na automação de etapas da tramitação processual, enquanto a Agaia atua na geração de relatórios judiciais e administrativos a partir da integração com os sistemas internos do tribunal.
Lia deve funcionar como polo permanente de inovação e capacitação
Além de desenvolver novos projetos, o laboratório também deverá atuar como suporte às áreas já existentes do tribunal.
De acordo com a coordenação da iniciativa, o espaço foi concebido para funcionar como um ambiente de desenvolvimento e capacitação à disposição das diretorias, da Presidência e das corregedorias, sem substituir equipes responsáveis por ferramentas que já estão em operação.
A proposta é ampliar a capacidade de inovação do Judiciário goiano, aperfeiçoando soluções existentes e criando novas aplicações voltadas à atividade jurisdicional e administrativa.
Com a inauguração do Lia, o TJGO busca consolidar uma estrutura permanente de inovação voltada ao desenvolvimento tecnológico, à qualificação de seus quadros e à criação de soluções capazes de ampliar a eficiência da Justiça. O próximo desafio será transformar os projetos desenvolvidos no laboratório em ferramentas que gerem impacto direto na prestação jurisdicional e nos serviços oferecidos à população.
