Uma vez por mês, quando a lua cheia ilumina o centro histórico da cidade de Goiás, no noroeste do estado, moradores e visitantes ocupam as ruas de pedra para uma noite de música e convivência. Eles cantam, conversam, tomam vinho e caminham sem pressa durante a Serenata da Lua Cheia, tradição que atravessa gerações e permanece como um dos encontros culturais mais simbólicos do município.
A concentração começa por volta das 23h, na escadaria da Igreja do Rosário. À meia-noite, o sino marca o início do percurso e o grupo segue pelo centro histórico. Durante a caminhada, cerca de 15 músicos acompanham os participantes, que cantam músicas tradicionais enquanto passeiam pela cidade.
Quem não consegue caminhar também participa. Muitos moradores mais velhos aguardam a serenata chegar até as janelas de casa, em uma cena que emociona e encanta tanto moradores quanto turistas.
A coordenadora da Serenata, Maria Clara Ferreira Alencastro Veiga, de 22 anos, explica que a prática nasceu entre os séculos XIX e XX, quando músicos faziam serenatas para pessoas amadas. Com o passar do tempo, a cidade perdeu o costume, mas um movimento cultural retomou a tradição em 2013.
“Foi um movimento cultural para recuperar algo que já fazia parte da cidade. A partir de 2021, depois da pandemia, a serenata ganhou ainda mais força”, afirmou Maria Clara.
Hoje, o evento acontece sempre durante a lua cheia e reúne entre 200 e 300 pessoas por edição. Em períodos de maior movimento, como a Semana Santa, hotéis e restaurantes registram lotação.
Apesar de atrair visitantes de várias regiões do país, a organização reforça que a serenata não nasceu com foco no turismo. “A serenata é da cidade. O turista é bem-vindo, claro, mas ela existe para quem mora aqui, para quem cresceu vendo isso acontecer”, disse Maria Clara.
Para quem participa, a serenata vai além de um evento cultural. O encontro reúne jovens, idosos, moradores antigos e visitantes na mesma caminhada, em uma experiência marcada por pertencimento, memória e convivência, com a música ecoando pelas ruas históricas da cidade.
Moradora do município há 42 anos, a servidora pública estadual Luciana de Araújo Borba, de 52 anos, cresceu acompanhando de perto a tradição. Ela diz que a ligação com a serenata se mistura à história da própria família, que sempre manteve relação com a música e com os seresteiros locais.
Luciana lembra que a retomada do evento, em 2010, contou com participação direta de músicos da cidade, incluindo integrantes da família dela. Desde então, ela acompanha a serenata sempre que pode. A mãe dela integra o grupo fixo de seresteiros e ocupa um lugar único na formação: ela segue como a única mulher do grupo.
A tradição também conquistou o público mais jovem, segundo Luciana. A filha dela, de 16 anos, participa com frequência e costuma levar amigas para acompanhar a caminhada. Em noites de lua cheia, a cidade de Goiás não apenas relembra o passado: ela revive a própria história passo a passo, guiada pelo som das canções e pelo ritmo calmo das ruas de pedra.








