O engenheiro, escritor e articulista Salatiel Soares Correia morreu na manhã desta segunda-feira (19), em Goiânia, em decorrência de um aneurisma de aorta. A causa da morte foi confirmada pela irmã, a juíza Suelenita Soares Correia, em uma publicação nas redes sociais.
O sepultamento está previsto para ocorrer no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Goiânia. Os horários do velório e do enterro ainda não haviam sido divulgados até a publicação desta matéria.
Salatiel deixa a esposa, a médica Adriana, e um filho. Era irmão da médica Suelene Pedrosa e da magistrada Suelenita Soares Correia.
Com uma trajetória que aproximou o conhecimento técnico da reflexão humanística, ele deixou uma produção intelectual voltada a temas como energia, economia, desenvolvimento regional, literatura e relações de poder.
Autor de dez livros, Salatiel lançou, em agosto de 2026, O jogo invisível das instituições – Um olhar shakespeariano sobre poder e caráter, pela Pontes Editores. A obra foi apresentada ao público no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), em Goiânia, e marcou uma nova etapa de sua produção literária.
Pouco antes, o escritor concedeu entrevista ao PortalGO, na qual explicou as ideias que orientaram o livro e discutiu como a ambição, a vaidade e a conduta das lideranças podem influenciar o funcionamento das organizações públicas e privadas.
Última obra abordou os bastidores do poder
Na entrevista publicada pelo PortalGO em 12 de agosto de 2026, Salatiel apresentou uma narrativa inspirada na obra de William Shakespeare para investigar as relações entre poder, caráter e comportamento humano.
O livro utiliza a ficção baseada em situações da realidade para discutir dilemas éticos presentes no ambiente corporativo. Entre os temas abordados estão a vaidade profissional, a inveja, o assédio moral, a distribuição política de cargos e os efeitos das escolhas de quem ocupa posições de liderança.
Um dos recursos narrativos é a figura do chamado “observador invisível”, que acompanha os acontecimentos sem ser percebido pelos demais personagens. A estratégia permite expor comportamentos que, segundo a proposta do autor, permanecem ocultos nas estruturas formais das instituições.
A obra contrapõe duas empresas fictícias, Eletro Baturité e Eletro Royal, para mostrar como diferentes padrões de conduta podem influenciar a cultura organizacional. Enquanto uma representa a deterioração provocada pela perda de referências éticas, a outra simboliza a importância da integridade e do respeito às regras.
Na entrevista, Salatiel também destacou a contribuição da literatura para ampliar a compreensão da realidade. Para ele, o conhecimento técnico, isoladamente, não é suficiente para interpretar o funcionamento de uma organização: é necessário compreender o contexto e as relações humanas que determinam as decisões.
Leia a entrevista completa no PortalGO: O jogo invisível das instituições expõe as vaidades e os bastidores do poder.
Da Celg à literatura
Natural de Piracanjuba, Salatiel era engenheiro eletricista eletrônico formado pelo Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) e administrador de empresas pela então Universidade Católica de Goiás. Também fez mestrado em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Ingressou na Celg em 1982 e permaneceu na companhia por 34 anos. A experiência no setor elétrico se refletiu em parte de sua produção, dedicada a temas como tarifas de energia, planejamento energético, desenvolvimento regional e os caminhos políticos e administrativos da empresa.
Em Goiás, a Globalização e o Futuro, analisou perspectivas para o desenvolvimento do Estado. Em A Energia na Região do Agronegócio, voltou o olhar para a matriz energética do Centro-Oeste.
A trajetória da Celg também apareceu em obras como Setor Elétrico Brasileiro — uma falência mais do que anunciada: o caso da Celg e outros escritos, publicado em 2010, e O Capitalismo Mundial e a Captura do Setor Elétrico na Periferia, em que discutiu as transformações vividas pela companhia e pelo setor elétrico.
Ao longo dos anos, Salatiel ampliou o campo de interesse e passou a transitar com mais frequência pela literatura, pela história e pela reflexão sobre comportamento humano.
Em Crônicas de um rebelde, reuniu textos publicados na imprensa ao longo de diferentes momentos da carreira. Também atuou como colaborador do Jornal Opção e do Diário da Manhã, com crônicas, resenhas e ensaios.
A memória familiar também apareceu em sua produção. Em Entre a Toga e o Perdão, recuperou a trajetória do pai, o desembargador Pedro Soares Correia, ao mesmo tempo em que refletiu sobre a relação entre pai e filho, marcada por conflitos, autoridade e reconciliação.
Presença na vida cultural de Goiás
Além da produção literária e profissional, Salatiel mantinha vínculo com instituições ligadas à cultura, à história e à imprensa goiana.
Era sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, do Instituto Cultural Bernardo Élis para os Povos do Cerrado (Icebe) e da Associação Goiana de Imprensa (AGI).
No IHGG, ocupava a cadeira 53, cujo patrono é o brigadeiro Felipe Antônio Cardoso. Ele havia sido eleito para integrar a instituição em novembro de 2024.
As três entidades divulgaram uma nota conjunta de pesar nesta segunda-feira e destacaram a trajetória de Salatiel como engenheiro, escritor e colaborador da imprensa.
Um legado de reflexão sobre a sociedade
Ao longo da carreira, Salatiel Soares Correia transitou por diferentes áreas do conhecimento, reunindo temas técnicos e humanísticos em sua produção.
Seus livros sobre energia e desenvolvimento dialogaram com a experiência acumulada no setor elétrico. Já na literatura, encontrou espaço para ampliar a reflexão sobre poder, ética, memória, instituições e comportamento humano.
Seu último livro sintetizou parte desse percurso ao utilizar a ficção para discutir questões que ultrapassam o ambiente empresarial e alcançam a gestão pública e as relações sociais.
A entrevista concedida ao PortalGO ajuda a registrar o pensamento do escritor e as preocupações que orientaram sua obra mais recente, deixando ao público um retrato de sua visão sobre o papel do caráter na construção e na preservação das instituições.
