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O preço dos alimentos, a segurança no caminho de casa e a renda que precisa durar até o fim do mês fazem parte da política, mesmo quando a conversa começa longe dos candidatos. São preocupações que entram no julgamento sobre quem governa e nas expectativas sobre quem poderá governar depois. Para compreender o segundo turno, vale observar como essas demandas se relacionam com os valores das pessoas e com a confiança que depositam em cada alternativa.
A nova edição do Índice de Conservadorismo em Costumes, da Ipsos-Ipec, oferece um ponto de partida. Divulgado em 13 de outubro, o levantamento mostra que o indicador passou de 0,652 em 2025 para 0,680 em 2026, numa escala de zero a um. É o maior resultado entre os levantamentos realizados depois de 2018, quando chegou a 0,689. A parcela classificada com alto grau de conservadorismo aumentou de 49% para 55%. As entrevistas foram feitas em setembro, antes do primeiro turno, e retratam opiniões presentes na sociedade que entrou nesta disputa.
A pesquisa reúne posições sobre aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, pena de morte, redução da maioridade penal e prisão perpétua para crimes hediondos. O índice descreve o conjunto dessas respostas. Já a identificação com um partido e a escolha de um candidato envolvem outras avaliações. Os dados mostram uma presença expressiva de atitudes conservadoras nas questões pesquisadas. Para entender seu alcance eleitoral, precisamos observar também as demandas e a imagem dos candidatos.

A segurança ocupa espaço
O movimento mais evidente está no apoio a punições mais severas. A prisão perpétua para crimes hediondos passou de 72% para 78% de apoio, e a redução da maioridade penal, de 65% para 71%. A pena de morte avançou de 43% para 52%. Como três das cinco perguntas do índice tratam de punição criminal, essas mudanças têm bastante influência no resultado. É principalmente nesse campo que aparece a alta recente do conservadorismo medido pela Ipsos.
As outras questões seguem trajetórias diferentes. A legalização do aborto recebe 17% de apoio e 74% de rejeição, próximos dos resultados anteriores. O casamento entre pessoas do mesmo sexo divide os entrevistados: 41% são favoráveis e 41% contrários. O apoio permanece acima dos 25% registrados em 2010. Há, portanto, uma sociedade com forte resistência à legalização do aborto, dividida sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e mais favorável ao endurecimento penal do que no levantamento de 2025.
Esse retrato fica mais interessante quando entram as armas. A flexibilização da posse é rejeitada por 51%, e o porte, por 58%. As duas questões foram pesquisadas, mas ficaram fora do cálculo do índice para preservar a comparação histórica. No retrato nacional, o apoio a punições mais duras convive com a rejeição majoritária à ampliação do acesso às armas. A ideia de um único pacote de posições conservadoras encontra limites nessas diferenças de aceitação.

Os dados sobre punição ganham contexto quando observamos quais problemas preocupam a população. Na Nexus, realizada de 10 a 12 de outubro, 33% dos entrevistados citaram segurança e criminalidade entre os dois principais problemas do Brasil. Saúde foi mencionada por 29%, corrupção por 18% e educação por 16%. Cada pessoa podia indicar dois problemas. Esses percentuais mostram a presença de cada assunto nas respostas, e não parcelas de um total que precisaria somar cem.
A preocupação com a segurança aparece nos dois campos: é mencionada por 32% dos que indicam voto em Lula e 34% dos que indicam Flávio Bolsonaro. São proporções próximas. O assunto reúne pessoas com preferências eleitorais diferentes, enquanto a Ipsos mostra amplo apoio a algumas respostas de endurecimento penal. Essa preocupação compartilhada torna relevante observar qual candidato recebe mais confiança para lidar com o problema.

A conta chega à mesa
A segurança compartilha espaço com outra experiência frequente: fazer as compras e conferir quanto dinheiro ainda resta. Na Quaest divulgada em 21 de setembro, com entrevistas de 17 a 20 daquele mês, 66% disseram que os alimentos haviam subido de preço no último mês. Outros 24% percebiam estabilidade e 8%, queda. A pergunta registra a percepção de quem compra em mercados, supermercados e feiras. É uma informação sobre a experiência dos consumidores, distinta da medição da inflação oficial.
O levantamento também perguntou sobre a renda familiar e o custo de vida no último ano. Para 33%, a renda não tinha aumentado; para 24%, tinha aumentado menos que o custo de vida. Apenas 10% afirmavam que ela tinha crescido mais que os preços. O orçamento oferece uma referência concreta para julgar a própria situação: quanto se recebe, quais contas precisam ser pagas e o que é possível comprar depois delas.

Esses resultados permitem colocar os valores ao lado das condições de vida. A Ipsos mostra opiniões sobre costumes e punição; a Quaest registra a experiência com preços e renda. Minha leitura é que um apelo conservador pode ganhar força quando oferece uma resposta convincente ao desejo de segurança e de estabilidade no cotidiano. Essa ligação é uma interpretação sobre o ambiente da disputa, que precisa ser examinada junto das demais razões do voto.
Isso torna necessário incluir emprego, renda, saúde e educação na análise. Na Nexus, a saúde é citada entre os dois principais problemas por 31% dos eleitores de Lula e 26% dos de Flávio. Na educação, são 20% e 12%, respectivamente. As duas candidaturas recebem apoio de pessoas preocupadas com serviços públicos e condições de vida, com diferenças na frequência das menções. Essas demandas acompanham a disputa e precisam ser consideradas junto dos valores.
Os valores encontram os candidatos
A Atlas/Bloomberg, realizada de 3 a 8 de outubro, perguntou em quem os entrevistados confiavam mais para administrar diferentes áreas. Em criminalidade e tráfico de drogas, 53% indicaram Flávio e 43%, Lula. Em economia e inflação, a comparação foi de 52% a 45%. São perguntas sobre confiança nos candidatos. Elas acrescentam uma dimensão à análise: além de conhecer uma preocupação, podemos observar a quem se atribui capacidade para enfrentá-la.
Essa vantagem de imagem é relevante para observar a disputa. A Ipsos e a Atlas, porém, entrevistaram pessoas diferentes. Os resultados ajudam a formular uma explicação para o apelo conservador, mas não medem o peso do conservadorismo no voto em Flávio. Para estimá-lo, seria necessário investigar valores e escolha eleitoral nos mesmos entrevistados, considerando também outras razões do voto.
A Nexus acrescenta diferenças entre as preocupações dos dois eleitorados. Corrupção aparece entre os principais problemas para 24% dos eleitores de Flávio e 12% dos de Lula. Impostos são mencionados por 14% e 4%; baixo crescimento econômico, por 15% e 6%. Esses assuntos recebem mais menções entre os que indicam voto no candidato do PL e mostram diferenças de prioridade entre os dois grupos.
Há também áreas em que a avaliação dos candidatos se aproxima. Na Atlas, Lula e Flávio recebem os mesmos 48% de confiança para administrar o tema apresentado como “pobreza, desemprego e desigualdade social”. Esse resultado lembra que a avaliação econômica inclui várias expectativas: controlar preços, conseguir trabalho, manter a renda e contar com proteção em momentos de dificuldade. Os candidatos podem receber julgamentos diferentes conforme a questão apresentada.

A relação entre avaliação econômica e voto aparece com força na Nexus. Entre os que consideram a economia ruim ou péssima, 78% indicam Flávio; entre os que a consideram ótima ou boa, 96% indicam Lula. Esse cruzamento mostra a proximidade entre as duas respostas. Sozinho, porém, não permite determinar quanto a avaliação da economia levou à preferência por um candidato ou quanto a preferência política influenciou essa avaliação.
Uma reportagem da DW sobre a onda conservadora oferece uma interpretação para parte desse ambiente. Os especialistas ouvidos destacam o desejo de mudança diante da violência, da corrupção e das dificuldades financeiras. Essa leitura pode ser discutida junto dos dados: valores conservadores já presentes e insatisfações atuais podem participar da mesma escolha, com importância diferente para cada pessoa.
A Ipsos mostra uma presença expressiva de atitudes conservadoras na sociedade brasileira, especialmente nas questões penais pesquisadas. As pesquisas eleitorais acrescentam preocupações que atravessam os dois campos: segurança, renda e serviços públicos. Nesse cenário, o desejo de mudança pode conviver com a defesa de valores tradicionais e a busca por estabilidade. Essa busca também pode favorecer a continuidade, conforme a avaliação que o eleitor faz de sua vida e do governo.
A estabilidade que importa na vida cotidiana é poder viver com segurança, sustentar a família e planejar o futuro.
Texto elaborado em 14 de outubro de 2026. Os levantamentos têm datas, métodos e perguntas diferentes. Seus resultados foram examinados separadamente.
Fontes e leituras
Ipsos-Ipec. Índice de Conservadorismo em Costumes. Setembro de 2026, divulgado em 13 de outubro. Campo de 9 a 13 de setembro; 2.000 entrevistas presenciais em 130 municípios; margem de erro máxima informada de 2 pontos percentuais para o total da amostra; confiança de 95%. Dados nas páginas 4–11, 13–17, 28 e 30. Divulgação oficial.
Nexus. BTG Pactual/Nexus: Eleições 2026, Presidente, 17ª rodada. Divulgação em 13 de outubro. Campo de 10 a 12 de outubro; 2.002 entrevistas por telefone; margem de erro informada de 2 pontos percentuais; confiança de 95%. Registro TSE: BR-07997/2026. Dados nas páginas 88, 90 e 93.
Quaest. Pesquisa presidencial nacional, divulgação de 21 de setembro de 2026. Campo de 17 a 20 de setembro; 2.004 entrevistas presenciais domiciliares; margem de erro informada de 2 pontos percentuais; confiança de 95%. Registro TSE: BR-06004/2026. Dados nas páginas 156 e 167.
AtlasIntel/Bloomberg. Eleições Presidenciais Brasil 2026. Divulgação em 9 de outubro. Campo de 3 a 8 de outubro; 5.026 respondentes; recrutamento digital aleatório; margem de erro informada de 1 ponto percentual; confiança de 95%. Registro TSE: BR-03663/2026. Dados na página 19.
Heloísa Traiano. O que explica a onda conservadora nas eleições de 2026. DW, 7 de outubro de 2026.
