A direção do Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara, em Goiânia, afastou por tempo indeterminado a ginecologista e obstetra Marcella Segato de Sousa Melo da escala de atendimento após tomar conhecimento de mensagens com conteúdo político atribuídas à profissional. O episódio ocorreu às vésperas da eleição e passou a ser apurado administrativamente.
Em uma conversa interna da equipe, a médica mencionou pacientes internadas e escreveu que ninguém deveria receber alta durante o sábado e o domingo porque “a maioria é petista”.
O conteúdo circulou em um grupo utilizado por médicos e estudantes de medicina ligados à unidade. Outros comentários de caráter eleitoral também foram feitos na conversa.

Em uma das manifestações, a profissional citou o número 22, usado por Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial, ao falar sobre a avaliação de estudantes que participavam do rodízio médico.
Após o caso se tornar público, a médica afirmou que as mensagens não correspondiam a uma orientação real de atendimento. Segundo ela, o comentário foi uma “brincadeira” feita em ambiente privado. A profissional também negou que pudesse beneficiar ou prejudicar estudantes em razão da escolha eleitoral.
Unidade abriu apuração
O hospital informou que o episódio será analisado internamente e que a profissional permanecerá fora da escala enquanto o caso é apurado.
Segundo a instituição, manifestações políticas individuais não representam a posição da maternidade. A direção ressaltou ainda que altas, internações e demais decisões assistenciais devem ser definidas exclusivamente a partir das condições clínicas de cada paciente.
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia informou que também adotou providências administrativas depois de ser comunicada sobre o episódio.
A pasta afirmou ter reforçado junto às equipes que usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) devem receber atendimento sem distinção relacionada a posicionamento político, ideológico, religioso ou qualquer outro critério alheio à avaliação médica.
A maternidade também pediu desculpas a pacientes e profissionais que tenham sido atingidos pelo conteúdo das mensagens.
Representação no MPF
Além da investigação administrativa, o episódio chegou ao Ministério Público Federal (MPF).
O advogado Alan Henrique Marques apresentou uma representação para que a conduta seja analisada pelo órgão. No documento, ele levanta questionamentos sobre uma possível utilização do ambiente de um serviço público de saúde para manifestações capazes de constranger pacientes ou interferir no contexto eleitoral.
Marques também contestou a explicação apresentada pela médica.
“No momento que nós estamos vivendo, numa eleição polarizada ao ponto que está, uma fala assim, e depois vir a público dizer que é ‘brincadeira’, é inadmissível. É subordinar as pessoas que precisam de um serviço público a um espectro político”, declarou.
A representação, por si só, não comprova a ocorrência de crime ou irregularidade eleitoral. A eventual adoção de outras medidas dependerá da análise dos fatos pelos órgãos responsáveis.
Nota do Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara
O Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara informa que não adota posicionamento político-partidário e pauta sua atuação exclusivamente pelos princípios que regem a assistência pública à saúde, pela ética profissional e pelos critérios técnicos e assistenciais aplicáveis a cada paciente.
As manifestações mencionadas na solicitação encaminhada pela imprensa ocorreram em grupo interno e privado de profissionais médicos e constituem manifestações de caráter pessoal de seus participantes, não representando, em nenhuma hipótese, posicionamento da Administração do Hospital ou da instituição responsável pela gestão da unidade.
O Hospital ressalta, ainda, que manifestações ou preferências políticas de caráter pessoal não se confundem com as condutas médicas e assistenciais adotadas na unidade. Decisões relativas à internação, permanência hospitalar e alta devem observar exclusivamente critérios clínicos, técnicos, éticos e de segurança do paciente, independentemente de qualquer convicção política, ideológica, religiosa ou de outra natureza.
Diante das informações recebidas, a Administração adotará os procedimentos internos apropriados para apuração dos fatos e de seu contexto, assegurados o contraditório, a adequada instrução e a observância das normas institucionais e profissionais aplicáveis. Caso sejam constatadas condutas incompatíveis com essas normas, serão adotadas as medidas cabíveis.
O Hospital reafirma seu compromisso com uma assistência impessoal, humanizada, ética e tecnicamente orientada, garantindo tratamento isonômico a todos os usuários do Sistema Único de Saúde.
A direção do HMMCC lamenta o ocorrido e apresenta desculpas formais aos colaboradores e pacientes que por algum motivo se sentirem atingidos pelo fato. Reitera ainda não pactuar com nenhuma forma de discriminação de qualquer natureza.
Por fim, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia informa que, assim que tomou conhecimento dos fatos relatados, adotou as medidas administrativas cabíveis para a apuração da conduta mencionada.
A Secretaria também reforçou a orientação às equipes quanto à necessidade de garantir atendimento adequado, ético e respeitoso a todos os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara – Secretaria Municipal de Saúde (SMS)
