Flávio Bolsonaro (PL) faz agenda de anúncios de apoios para mostrar força com volume de adesão. Um apoio atrás do outro, para várias manchetes, na perspetiva de que é um movimento crescente. Uma velha estratégia da política. Funciona.
Lula (PT) mobiliza as bases esquerdistas, progressistas e do PT para engajar a militância, dispersa no 1º turno. Faz um chamado geral e uma convocação aos mais dispostos: a luta continua, companheiros. Foi atrás da juventude para tentar chegar à viralização nas redes sociais. Tá que grava vídeos com influencers do campo progressista, que o apoia. Deu certo.
Objetivo de Flávio é mostrar que a sua vitória é certa, está garantida. Não cuidou nem de disfarçar o risco da arrogância do já ganhou. Questão de tempo, a vitória – essa a mensagem que importa transmitir.
E a de que está preparado para governar, tem projeto e sustentação política, respeitará as instituições, tem lastro social e equilíbrio para isso. Ele tem se esforçado para se mostrar moderado e confiável. Palatável aos que temem o radicalismo conhecido da família.
O objetivo de Lula, tático e imediato, é criar e mostrar volume de campanha que indique que não está derrotado, que está no jogo. Pontualmente, como resultado dos movimentos iniciais, procurou passar a ideia de que mudou tudo, como se tivesse entendi o recado das urnas do 1º turno.
A cara da campanha é outra por ação estratégica. Mais alegre. Reparem que Lula tirou aquele estranho chapéu que lhe dava um ar de malandro. Está com visual de vovô, aquele avô legal, que todos amam. Sua energia é outra. Parecia distante do povo, ganhou o modo junto e misturado.
Rede Social sempre foi campo de domínio dos bolsonaristas. E terra arrasada para petistas. Os aliados de Flávio usam as redes para engajar as ruas. Trabalham em dois sentidos.
Os lulistas não são mais os mesmos nas ruas, e nas redes a coisa às vezes parece que vai melhorar, mas nada, ainda. A esperança petista é mudar esse eixo. A realidade de Flávio é ampliar a vantagem.
De inusitado tem uma massa de jovens ocupando aos poucos as ruas de cidades como Goiânia, Recife, Rio de Janeiro, em defesa de Lula, sem que Lula tenha operado o milagre dessa multiplicação de apoios.
O movimento tem chamado atenção e repercutido com vídeos e fotos no WhatsApp, Instagram e outros canais. Não é rua petista. É rua juvenil. Essa manifestação é um ponto fora da curva. Até onde vai, aonde vai chegar, são questões em aberto.
O que Lula corre pra fazer, Flávio já tem pronto, a uma voz de comando. Ele sabe agitar a sua galera. E tem ainda a vantagem da perspectiva da vitória, abastecida pela outra vantagem, a de passar à frente no final do 1º turno.
É voz geral que ele desponta como favorito, e que na campanha do petista só tem crise de identidade, desacerto de ação e dissabores internos. O clima impõe seus horrores internos e interfere nos ânimos. Essa a luta antes da luta. Para Lula: mexer com o brio para mexer no resultado adversão. Para Flávio: não baixar a guarda.
A reação nas redes e nas ruas é a última arrancada de Lula para tentar virar o jogo. Ele nada contra as correntezas da derrota e as primeiras pesquisas pós 1º turno. Flávio surfa na onda positiva, sabendo que não há vitória certa e que não será fácil – porém, que mais difícil será caso não aproveite os ventos a favor.
A diferença não tão grande nas pesquisas é munição de contra-ataque, o impulso retórico de Lula para convencer a Deus e todo mundo que dá tempo e dá pra ganhar. É o espírito do sentimento de “a luta continua, meu povo”.
Discurso e ação são carregadores de engajamento e fé na virada, por um lado. Do outro, a razão é pragmática: o bolsonarismo cresce na reta final. É ativo estratégico para a hora certa. Tem produzido bons efeitos e está engatilhado.
Lula mais atirado, falante, energizado, buscando gás em mina de carvão. Flávio um tanto comedido, medindo as palavras, focado mais nas urnas do que em ter razão, já escolhendo ministros.
Pesquisas como motivador X desmotivador de campanha. A disputa na ponta da língua é na confusão dos analistas. Na contradição que estimula a dúvida e alimenta as expectativas.
A roda gira nesses trilhos.
Uma guerra sem fim, em que os fins justificam os meios, como sempre, mas em tom elevado. Os fins e os meios não sofrem do mal do escrúpulo. Quanto mais astúcia e fogo, mais poder e mais orgulho da própria desfaçatez como prova de superioridade humana e moral.
Não tente entender o mundo. Ou tente, mas cuidado. Viva, se for capaz.
As denúncias trocadas como método não tem eco no coração e na marcha da razão das pessoas. A letargia do povo só acirra a polarização, que se estabelece também aí. O que deveria revoltar, virou bandeira de torcida. Não há indignação. A alienação lidera. O que temos para hoje.
Lula foi eleito e reeleito duas vezes por méritos próprios. E passou derrotado do 1º para o 2º turno por demérito pessoal. Reprovação alta do governo. Condução política sem o brilho dos mandatos anteriores.
Flávio, empatado em rejeição com o inimigo, será eleito – se for – por mérito do bolsonarismo, fenômeno populista dos tempos atuais. Por seus deméritos, é cobrado mas não é punido com sonegação de votos. Muito antes pelo contrário.
O bolsonarismo e o lulismo disputam qual ficará na História e qual seguirá em obras pelos próximos anos. Legado de Lula e Jair Bolsonaro estão nas entrelinhas do poder em jogo. A sobrevivência é a trincheira. A História mata no tempo. Continua viva. O Brasil que seremos definitivamente não será o Brasil que sonhamos.
