O grupo jurídico Prerrogativas informou ter acionado a Polícia Federal (PF) para pedir a apuração de uma possível articulação envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e pessoas supostamente ligadas à campanha de Flávio Bolsonaro (PL). A suspeita apresentada pelos advogados é de que informações atribuídas ao banqueiro poderiam ser usadas para atingir politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o segundo turno da eleição presidencial.
Segundo reportagem do ICL Notícias, que afirma ter tido acesso ao documento, a notícia de fato foi apresentada pelos advogados Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida. Na noite de quinta-feira (8), a Folha de S.Paulo também havia noticiado que o Prerrogativas pretendia pedir à PF a abertura de uma investigação.
Carvalho é coordenador do Prerrogativas e também atua na coordenação da campanha de Lula à reeleição em São Paulo. O segundo turno entre o petista e Flávio Bolsonaro está marcado para 25 de outubro.
De acordo com a versão apresentada pelo grupo, os advogados receberam informações sobre a existência de uma gravação atribuída a Vorcaro com acusações contra integrantes do governo federal e adversários políticos de Flávio. O material teria sido armazenado em um HD e repassado a terceiros.
Os próprios autores do pedido, porém, afirmam não ter tido acesso à gravação. A solicitação à PF busca justamente verificar se o material existe, identificar sua origem, apurar quem participou de sua produção e descobrir de que forma teria circulado.
Até o momento, não há comprovação pública de que pessoas ligadas à campanha de Flávio Bolsonaro tenham participado da produção ou da circulação desse material.
Segundo Marco Aurélio de Carvalho, o Prerrogativas recebeu relatos de que Vorcaro teria sido incentivado a afirmar que financiou o documentário Lula, dirigido pelos cineastas Oliver Stone e Rob Wilson e lançado em 2024.
Ainda de acordo com a versão levada pelo grupo às autoridades, o ex-banqueiro teria recebido a promessa de deixar a prisão no início de 2027, com uso de tornozeleira eletrônica, enquanto seu pai, Henrique Vorcaro, seria libertado. A existência dessa suposta negociação também não foi comprovada.
O Prerrogativas sustenta que a eventual divulgação de informações falsas poderia interferir na reta final da eleição. Caberá à Polícia Federal avaliar os elementos apresentados e decidir sobre eventuais diligências ou abertura de investigação.
Veja divulgou relatos de Vorcaro sobre supostos pagamentos ligados a filme de Lula
O pedido do Prerrogativas ocorre em meio à divulgação, nesta sexta-feira (9), de uma reportagem da revista Veja com áudios e documentos atribuídos a Daniel Vorcaro envolvendo pessoas ligadas ao PT e ao governo federal.
Segundo a publicação, Vorcaro afirmou ter participado de negociações para ampliar os negócios do Banco Master com fundos de pensão de servidores federais.
Em um dos documentos reproduzidos pela revista, o ex-banqueiro afirma que cerca de R$ 30 milhões em espécie teriam sido exigidos para cobrir despesas de um documentário sobre Lula produzido no exterior. O relato menciona ainda o pagamento de outro valor, não especificado, ao Instituto Lula.
Vorcaro relata o seguinte no áudio:
“Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele. É … O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula … E aí tem o negócio do filme também. O cara pede para colocar dinheiro no filme do Lula. Tudo no … (inaudível) O filme do Lula eu coloquei acho que até mais, eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi porque foi patrocínio, foi patrocínio normal”.
Entre os nomes citados estão o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e Paulo Okamotto, ligado ao Instituto Lula. Vorcaro também fez acusações envolvendo integrantes do governo federal.
As afirmações do banqueiro, no entanto, não significam que os pagamentos tenham sido comprovados. A própria Veja informa que essa parte do relato não avançou na Procuradoria-Geral da República por falta de provas dos supostos repasses, que, segundo Vorcaro, teriam ocorrido em dinheiro vivo.
A defesa do ex-banqueiro sustenta que existiriam elementos capazes de corroborar sua versão, como mensagens de WhatsApp, registros de pessoas que teriam retirado os valores e informações sobre rotas usadas nas supostas entregas. Esses elementos, porém, ainda não foram apresentados publicamente de forma a comprovar os pagamentos relatados.
Lula afirmou à revista que jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira de Vorcaro e que nunca autorizou terceiros a receber recursos em seu nome. Olavo Noleto e Alexandre Padilha também negaram participação nas irregularidades descritas pelo ex-banqueiro.
Os responsáveis pelo documentário Lula já haviam negado, em maio, que a produção tenha recebido recursos, investimentos, patrocínios ou contribuições provenientes de Vorcaro, do Banco Master ou de empresas e fundos ligados ao ex-banqueiro.
Segunda tentativa de delação foi rejeitada
Parte das acusações divulgadas pela Veja teria integrado materiais apresentados por Vorcaro durante suas tentativas de negociar um acordo de colaboração premiada.
A segunda proposta foi rejeitada pela Polícia Federal em 11 de junho e, quatro dias depois, pela Procuradoria-Geral da República.
Na ocasião, a PF informou que as razões específicas da rejeição da segunda proposta estavam sob sigilo. Na primeira tentativa, recusada em maio, investigadores haviam avaliado que Vorcaro não apresentou novidades relevantes em relação ao material já obtido pela investigação e não reconheceu a prática de crimes.
A rejeição de uma proposta de colaboração não significa, por si só, que todas as declarações apresentadas pelo candidato a delator sejam falsas. As acusações precisam ser verificadas e corroboradas por outros elementos de prova.
Financiamento de Dark Horse já é investigado pela PF
O caso envolvendo o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, está em um estágio diferente de apuração.
Em julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a instaurar um inquérito para investigar repasses atribuídos a Daniel Vorcaro destinados à produção do longa.
Flávio Bolsonaro confirmou em maio — após vazamentos do Intercept Brasil — ter procurado Vorcaro para obter recursos privados para financiar o filme sobre o pai. O candidato do PL negou, porém, ter oferecido ou recebido qualquer vantagem indevida.
Reportagens apontaram repasses de aproximadamente R$ 61 milhões relacionados à produção. Em setembro, documentos tornados públicos mostraram que Flávio foi incluído formalmente entre os investigados no inquérito. A inclusão em uma investigação não representa condenação nem comprovação de crime.
No pedido apresentado agora, o Prerrogativas solicita que a PF verifique se existe alguma relação entre o material atribuído a Vorcaro, as negociações para entrevistas concedidas pelo banqueiro e pessoas vinculadas à campanha de Flávio Bolsonaro.
O grupo também pede a análise de registros de visitas e da entrada de equipamentos no local onde Vorcaro está preso, além da identificação de eventuais intermediários envolvidos na circulação das gravações.
Até que esses elementos sejam verificados pelas autoridades, tanto a hipótese de uma articulação para atingir Lula no segundo turno, quanto as acusações de Vorcaro sobre pagamentos ligados ao documentário permanecem sem comprovação uma definitiva.
