A reforma agrária na Nova República. Furo de reportagem que agitou o jornalismo, principalmente em Brasília, onde a competição é vivida 48 horas por dia, consagrou o jornalista Luiz Carlos Bordoni como repórter investigativo.
A matéria escrita por ele na Folha de S.Paulo sobre reforma agrária foi publicada no dia 29 de maio de 1985. O texto saiu ilustrado na primeira página com o seguinte título principal: “Ministério já tem as áreas para começar reforma agrária”.
Contexto e Conteúdo da Matéria
- O momento histórico: A reportagem foi publicada no início da Nova República, período marcado por intensos debates sobre a reestruturação fundiária do país e pela criação do Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA) no governo de José Sarney.
- O foco do texto: A matéria trazia a público dados do recém-criado Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário (Mirad). A reportagem detalha um levantamento nominal das principais áreas de conflito de terra em cada estado do país, especificando o número de hectares e a quantidade de famílias envolvidas no impasse.
- A repercussão: Na época, a revelação dessas listas e o anúncio de que o governo federal já tinha um mapeamento pronto para iniciar os assentamentos geraram forte reação e inquietação entre proprietários de terra e latifundiários, tornando-se um documento jornalístico frequentemente citado em teses e livros acadêmicos sobre a história da luta pela terra e a trajetória de movimentos sociais no Brasil.
O impacto político e social da publicação desta matéria de Luiz Carlos Bordoni na Folha de S.Paulo em 1985 foi profundo, pois ela expôs as linhas de fratura em um dos temas mais sensíveis da redemocratização brasileira.
Os principais desdobramentos e impactos gerados por aquela revelação jornalística incluem:
1. Fim do sigilo governamental e aceleração dos conflitos
Até a publicação, o recém-criado Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário (Mirad) tentava mapear as áreas de tensão de forma interna para desenhar o Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA) sem sofrer pressões extremas. Ao expor nominalmente as propriedades e regiões mapeadas para desapropriação e assentamento, a matéria antecipou o debate e acelerou a mobilização de ambos os lados do conflito de terras.
2. Reação e articulação imediata dos proprietários de terras
A divulgação da lista gerou forte inquietação entre fazendeiros e latifundiários. Esse clima de instabilidade e o medo de desapropriações iminentes serviram de combustível para que proprietários rurais acelerassem sua organização política. Historicamente, esse período coincide com a articulação que deu origem à UDR (União Democrática Ruralista), criada justamente para combater o avanço do plano de reforma agrária do governo Sarney.
3. Fortalecimento da pauta dos movimentos sociais
Para os trabalhadores rurais e movimentos recém-organizados (como o MST, fundado oficialmente pouco antes, em 1984), a matéria funcionou como um mapa oficial das promessas do Estado. Sabendo exatamente quais áreas o Ministério considerava prioritárias e de conflito, os movimentos sociais ganharam forte munição argumentativa e estratégica para pressionar o governo a cumprir os assentamentos prometidos.
4. Desidratação do plano original do governo
Diante do forte impacto da opinião pública, da polarização na imprensa e da imensa pressão política exercida pelas bancadas ruralistas no Congresso, o governo federal acabou recuando nos meses seguintes. O plano original de reforma agrária acabou sendo sucessivamente modificado e “desidratado”, reduzindo drasticamente as metas iniciais de famílias a serem assentadas e as áreas que seriam alvo de desapropriação.
