Ronaldo Caiado dobrou a aposta. E pode ter triplicado a dificuldade para Gracinha Caiado (União Brasil) e Daniel Vilela (MDB).
Caiado vinha criticando Flávio Bolsonaro. Nesta quinta, 24, avançou mais uma casa.
“Quem tem teto de vidro não pode jogar pedra nos outros, Flávio”, mandou o recado em um post no X.
Acrescentou: “Voar no jato do Vorcaro, receber dinheiro e jantar com quem lesou milhões de aposentados não é coincidência, é cumplicidade. O cerco está se fechando… ainda dá tempo de contar a verdade e explicar o inexplicável!”
É o candidato a presidente Ronaldo Caiado (PSD) falando grosso contra o adversário bolsonarista Flávio Bolsonaro (PL). Isso é campanha.
Uma nova revelação sobre Flávio é que ele voou em avião de Daniel Vorcaro, do Banco Master, em janeiro. O avião vem a ser o mesmo que, meses depois, foi usado por Alexandre de Moraes, condenado sem defesa pela opinião pública bolsonarista.
Criticar adversário é do jogo. Mas criticar adversário de hoje que pode ser aliado amanhã costuma ser erro de cálculo estratégico.
A não ser que se considere que depois é depois: tudo se resolve com jeitinho. Quer dizer: prevalece o cinismo pragmático dos discursos e da velha política do casuísmo.
Em Goiás, anda cada vez mais forte o movimento bolsonarista contra Caiado e Gracinha. Esse movimento corre nas veias abertas, visíveis e invisíveis, da campanha de Wilder Morais.
Wilder ligou há pouco na tomada a rede composta por essa massa de militantes e essa estrutura de mobilização. Ele depende dela para chegar ao 2º turno.
Sem pré-campanha feita e sem campanha ativa capaz, por si só, de garantir-lhe a mínima chance de vitória, ele depende do milagre da ação do bolsonarismo na reta final.
Um sinal dessa mobilização está no aumento de posts negativos contra Ronaldo Caiado e Gracinha Caiado, candidata a senadora. Fogo concentrado.
Wilder atira na fragilidade de Caiado.
O ex-governador não cresce nas pesquisas, esteve hospitalizado e vê Gracinha com eleição em xeque.
Aconselhado a trocar a eleição para presidente pela presença em Goiás nos próximos dias, com objetivo de impulsionar as candidaturas de Daniel e Gracinha, ele de fato está mais aqui do que lá, na disputa presidencial.
Nos posts contra Gracinha, o foco é um só: as críticas dela e dele a Flávio Bolsonaro.
Um dos posts responsabiliza Gracinha por interferência direta na demissão do marqueteiro anterior de Caiado, que desaprovava os ataques a Flávio.
Em outro, Gracinha e Caiado aparecem no Palácio das Esmeraldas em vídeo ao lado do ministro Flávio Dino, indicado por Lula ao STF. Ela teve que se explicar.
As ações têm a ver com a eleição em Goiás, mas também com a eleição nacional.
Nas pesquisas recentes, os índices de Caiado e Romeu Zema caíram.
Muito a ver com voto útil: a escolha de votar em Flávio porque os outros candidatos da direita não têm chance de vencer Lula. O discurso é esse.
Wilder Morais entra na mexida do caldeirão com razão: buscar 2º turno em Goiás e ajudar Flávio e Gustavo Gayer, candidato a senador do grupo com mais chance de chegar lá.
O PL tem ainda Ozéias Varão como candidato. Mas tem no horizonte outro nome, em dobradinha com Gayer: Gustavo Mendanha (PRD).
A mobilização bolsonarista em Goiás tem método e propósitos definidos.
Para Wilder, levar a eleição para o 2º turno contra Daniel Vilela é o mais urgente e mais decisivo.
O governo já identificou isso e tenta segurar essa onda. Uma das reações foi alimentar na mídia o embate entre Wilder e Marconi Perillo (PSDB).
Daniel, que fala em vitória no 1º turno, tem com que se preocupar.
Jogam contra seus interesses: a) as ações de Caiado, b) a possibilidade de que o movimento do bolsonarismo iniciado por Wilder pegue, c) a persistência de Marconi, que também almeja o 2º turno e luta por isso.
A estratégia governista de pregar vitória no 1º turno se confunde com a ação em curso de contenção de danos e de possível queda nas pesquisas.
A corrida é mais para cercar perda de voto do que certeza de fim da eleição no dia 4. Antes que a situação vire água de morro abaixo, ou fogo subindo a serra.
Porque, se isso ocorrer, o risco sobe. O risco atende por nomes variados. Um deles é voto útil.
Não há situação confortável para ninguém. Os índices de indecisos (cerca de 15%, segundo as pesquisas) e dos que podem mudar o voto (40%, nos cálculos de um dirigente de instituto) deixam claro que o quadro está em aberto.
A eleição em Goiás não está definida. Nem para o governo, nem para o Senado.
E Caiado é o bem e o mal dos últimos dias.
