Parafraseando o título de um velho filme, parece que estamos entrando na era da “infidelidade ao alcance de todos”. Na política brasileira, e particularmente nas eleições deste ano, as fronteiras partidárias começam a ficar tão elásticas que já não se sabe exatamente onde termina uma chapa e começa a outra.
Candidatos ao Senado, à Câmara dos Deputados e às Assembleias estão construindo composições que atravessam partidos, grupos e até palanques adversários. O candidato pede voto para si, combina a dobradinha com alguém de outra legenda e, mais adiante, fecha compromisso com um postulante ao Senado pertencente a uma terceira força política.
Em Goiás, esse desenho aparece com nitidez. Há articulações envolvendo candidatos que oficialmente pertencem a projetos diferentes para o governo estadual. Bruno Peixoto, por exemplo, integra o campo político ligado a Daniel Vilela, enquanto Gustavo Gayer foi oficializado candidato ao Senado pelo PL, partido que lançou Wilder Morais ao governo. A campanha vai revelando, entretanto, pontes, dobradinhas e apoios cruzados entre integrantes desses diferentes campos.
Não se trata sequer de uma exclusividade goiana. A pulverização partidária brasileira e a crescente personalização das campanhas vêm transformando a eleição proporcional numa espécie de território autônomo.
É o velho princípio do “primeiro eu”. Quero ser eleito. Preciso dos votos. Se para consegui-los for necessário atravessar a rua, visitar o adversário, abraçar o candidato de outra chapa ou combinar apoios que aparentemente não caberiam no mesmo palanque, que assim seja.
A ideologia vai para um lado. O programa partidário, para outro. E a sobrevivência eleitoral segue pelo caminho que parecer mais curto.
Pode haver uma explicação pragmática para isso. Deputados estaduais e federais dependem de bases municipais, prefeitos, vereadores, lideranças religiosas, empresariais e comunitárias. Nem sempre esses grupos obedecem à mesma lógica das alianças estaduais. Uma liderança pode apoiar determinado governador, preferir outro senador e escolher para deputado alguém pertencente a uma terceira legenda.
A questão começa a ficar mais delicada quando a exceção deixa de ser exceção e se transforma em método. Se cada candidato monta a própria chapa, para que existem as chapas?
Se cada um escolhe os companheiros que mais lhe convêm eleitoralmente, independentemente do programa partidário, para que existem os partidos?
E, principalmente: o que exatamente está sendo oferecido ao eleitor? Uma proposta de governo ou um consórcio de candidaturas?
O sistema eleitoral brasileiro ajuda a explicar parte desse comportamento. Para os partidos, conquistar cadeiras na Câmara dos Deputados tem enorme importância institucional. O tamanho das bancadas influencia o acesso a recursos partidários e eleitorais e também o peso político das legendas no Congresso. Quanto maior a bancada, maior tende a ser a capacidade de negociação.
E é justamente aí que surge outra questão. Quando o partido passa a enxergar prioritariamente o número de cadeiras que conseguirá conquistar, pode haver uma tendência a tolerar arranjos aparentemente contraditórios, desde que eles contribuam para aumentar sua representação parlamentar.
Forma-se aí uma espécie de mercado político. “Você me ajuda aqui, eu o ajudo acolá.” “Meu estadual caminha com seu federal.” “Seu grupo apoia meu senador.” “Para governador, cada um segue o seu.” Tudo perfeitamente acomodado na matemática eleitoral.
Mas política não deveria ser apenas matemática. Partidos nasceram, teoricamente, para reunir pessoas em torno de ideias, princípios, programas e determinada visão de sociedade. O eleitor deveria olhar para uma legenda e saber, pelo menos aproximadamente, o que ela representa.
Quando as alianças passam a obedecer quase exclusivamente à conveniência individual, a identidade partidária perde importância e o candidato transforma-se numa espécie de partido de si mesmo. Talvez estejamos assistindo exatamente a isso.
Não necessariamente ao desaparecimento dos partidos, mas à sua transformação em instrumentos eleitorais cada vez mais pragmáticos, enquanto as candidaturas constroem redes próprias de sobrevivência. O fenômeno merece atenção porque pode produzir uma democracia formalmente partidária, porém cada vez mais personalista.
No papel, elegemos representantes por partidos. Na campanha, porém, podemos acabar assistindo a candidatos circulando livremente entre diferentes palanques, escolhendo parceiros conforme a conveniência eleitoral de cada município ou região.
Pode ser pragmatismo. Pode ser consequência natural do nosso sistema eleitoral.Pode ser simplesmente a política adaptando-se às suas próprias regras.
Mas existe uma pergunta que não deve ser abandonada: quando princípios, programas e fidelidades políticas são colocados em segundo plano diante da necessidade de conquistar votos, estamos fortalecendo a democracia representativa ou apenas aperfeiçoando um gigantesco escambo eleitoral?
A resposta, como sempre, caberá ao eleitor, mas, pelo andar da carruagem, a infidelidade eleitoral nunca esteve tão ao alcance de todos.
