Quando digo esta é minha essência, o que as pessoas entendem por essência, qual a leitura que elas têm de mim? Somos metafísicos nas decisões que tomamos, como ir a uma padaria comprar bolo? Ou no que nos move, na iniciativa de ir? Ou no desejo despertado de comer bolo? Ou como fruto do dia que amanheceu frio, com ventos firmes e uma saudade imensa da casa da vó? Ou nas linhas tortas, com mensagem explícitas mas lidas como mensagens cifradas, miúdos recados de extravasamento?
Minha pele não me define. E minha alma, o que diz de fato para ser compreendida de verdade – e em que me escapa, a ponto de eu mesmo não me compreender e não conter como inevitabilidade? Penso sempre nisso: o quanto sou, pois, inevitável e o quanto me faz ser, pensar nisto sempre? E para Deus, na concepção da vida e na engrenagem do universo? Ou para a humanidade, como parte, quem sabe, de uma viga mestra de sustentação da estrutura do romance, dos versos livres, de tudo.
Tudo carrega um significado imenso, e intraduzível. Tudo é labirinto e é mapa de descaminho. Tudo: pelo que resulta ao entendimento. Tudo: pelo que abrange. Tudo, pelo que evoca, em contrapartida: o nada. Um há o outro, em frase mesmo torta. Como meu espírito em minha pele. E quando digo meu espírito, o quanto há de alma nas frases talhadas? O conceito de uma coisa e outra me converte no que sou, tudo, e no nada que sou – que se confunde com o que não sou, e com as outras definições – as impossíveis também.
Quando digo esta é minha proficiência, sei que falo de qualquer outro, pois o penso e julgo, e que a parte que se refere a mim é inolvidável, porém eternamente indefinida aos meus olhos, de fora e aqui dentro. Ou eu me disfarço no que querem, ou eu me revelo na pretensão de mim se desenredando em tapete acontecendo sem fim. Coisas etéreas, posto que a existência, essa Terra revolta, é senão a ficção bíblica de um Deus autor. Florestas frescas com nascentes despercebidas, bebidas. Desertos prenhes e caudalosos, iguais a beijos apaixonados.
A materialidade da vida é uma resistência à falta de imaginação. Anoto nas margens os atos de fé, à parte o turbilhão do sangue que corre feito rio à concepção do fim esperado como pré-determinação das Historias contadas. Meu fim desabala-se tão absoluto, tão essencial de tudo que se in-contém, que não encontra equivalente em metáfora alguma. Qual o propósito? Nem em Deus cabe meu fim, nem meu fim cabe Deus, e o que resulta matematicamente dessa sobreposição de versões anotadas e contadas e desacontecidas e ininterruptas é na espinha dorsal do tempo. Ou o que sobressai, desafiando as certezas e as cláusulas pétreas de viver com razão. Por razão explícita, nunca fui além do que é sem começo antes e depois.
Na essência, somos a intensidade do que lemos, mais do que escrevemos. O sentido é este suspiro surpreso, e um tanto os olhos estatelados. Se você lê o que escrevo e entende o que você quis dizer, esteja certo de que cumpri o meu desejo. Não desejo menos. Não há missão nas frases que componho. Há o gozo explosivo do dicionário que me guia sem que o tenha sequer concebido. Esse dicionário de séculos que chega como abismo, e não como tampo – e não, por certo, como conteúdo que me faltava (para) ser. Nunca somos o que está escrito porque nunca não existe, na frase que se afirma. Nunca é muito menos o destino. Meu corpo, metafísico, não se nega por completo, mas não vai a lugar algum. Não leia sim.
