Tenho procurado me libertar da urgência. Não tem nada passando da hora, dizia meu pai. Frase poderosa. Não e nada produzem sentidos múltiplos, como nós produzimos com o simples fato de existir.
Fato? Existimos de fato? Repare na maravilha que é ler. Melhor que viver, sem dúvida. As respostas impossíveis são apenas um dos muitos sinais de que não somos possíveis em qualquer explicação.
Nem como justificativa nos definimos, já que Deus é o princípio e o fim, o wue significa dizer que não passamos do meio. Estamos em meio. Estamos pelo meio. Somos meio. Meio a meio, do parto ao partir.
Meio que não passamos disso, se a ambição não for Deus. Meio que nos limitamos a ser o que Deus quiser. Sonhar, imaginar, criar são verbos auxiliares da conjugação humana. Curioso que, pele e osso, almejemos o tempo todo a transcendência.
Tenho pra mim, desde os dias em que uma cobra andou pelo meu corpo ainda bebê – minha ficção real -, que a imanência de que sou feito é o corpo que me embala. Sou sentimento e o resto é resto. O embalo é erupção.
Soa metafórico o que disse e talvez incompreensível. Poderia dizer que é isso mesmo. Porque é. Mas vou traduzir para o concreto aos olhos. Eu sou o veneno, e não a cobra. Deslizo pelos vãos da sua respiração. E você nem percebe.
Não preciso de urgência pra viver. Esta a minha conclusão. Meus princípios. Nada como ser a Bíblia, em vez do Grande Sertão com suas veredas. Nada a ver ser um parágrafo inteiro se sou o ponto.
Leio-me antes de você. Que pressa é essa? Onde ir com tanta contundência? Tenho dois retratos na memória. Em um deles, estou em casa e começa a chover. É retrato – e sinto o cheiro da terra.
O outro: à noite, sereno, mata fechada depois da janela, e um copo cheio de café. Estou sozinho, porém não estou. Estou sorrindo e estou com amigos, com a família, com quem define pra mim, com a respiração, o que é amor.
Não sou urgente. Definitivamente. Indefinidamente.
