Domingo à noite. Luzes quentes. Procuro um filme para assistirmos.
Uma mulher asiática de peruca e óculos escuros surge em meio ao catálogo. Ela claramente chama a atenção por destoar do ambiente.
A sinopse: “Em Hong Kong, dois policiais solitários se cruzam com duas mulheres misteriosas. O policial 223 se apaixona por uma mulher misteriosa de peruca loira sem saber que ela é uma grande traficante de heroína. O policial 663 vai a uma lanchonete 24 horas e a nova garçonete se encanta secretamente por ele.”
Fiquei assustado com a nota da plataforma que informa a seguinte curiosidade: o filme havia sido gravado em apenas 22 dias no intervalo da gravação de outro longa.
O Amores expressos começa. A logo prometida madame loira e de óculos escura vem à tona com a charmosa maneira de captar o movimento borrado. Wong Kar-Wai sabia, e ainda sabe, o que faz.
223 é um policial muito bonito, mas é chato. Falta um pouco de sal. Uma casca bonita e um interior peculiar, preenchido por pedaços de uma fruta e por uma maneira peculiar de se expressar: correr para suar e não ter lágrimas para chorar. Ele se queixa de estar só. Compulsivamente compra suas latas de abacaxi em conserva. Ele não faz o estereótipo de policial que todos estão acostumados.
Hong Kong dos anos 90. Eu sinto uma nostalgia que não me pertence. É esse o poder de um longa que rasga a cortina da imaginação e mostra que o que está por trás é muito mais do que a vontade de um final concreto em uma parede.
Muito antes dos vídeos das gororobas indianas começarem a circular pelas redes, os indianos aqui já mostravam que o choque cultural é inevitável e fatal.
Há 2 universos. Nos primeiros momentos alguém caricato, desesperado por conexão em uma cidade enorme e alguém que, aparentemente, há muito não busca conexão. 40 minutos depois o outro. Um policial, agora o 663, maravilhosamente interpretado por Tony Leung Chiu-Wai (O pai de Shang-Chi no universo da Marvel) junto de uma garçonete chamada Faye (a atriz também se chama Faye).
663 tem um apartamento bagunçado, mas nada que não possa ser corrigido. Ele vive um romance com uma comissária de bordo.
É feio demais ler a correspondência alheia. Penso que esse acesso ao mundo particular alheio é como um efeito borboleta. O que aconteceria se 663 lesse essa carta da comissária?
O olhar e o comportamento de Faye me acenderam o alerta para um paralelismo interessante. Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant ao criarem O Fabuloso Destino de Amélie Poulain certamente se inspiraram nas aventuras de Faye. As intervenções na vida de quem gostam é um claro indicativo de que as duas estão lado a lado.
Para quem busca um sentido: pense na lanchonete como um fio que 223 e 663.
Things in Life e California Dreaming incomodaram pela repetição, mas não a mim. E o tema, ‘夢中人’ (Mung Jung Yan) — a versão em cantonês (idioma oficial de Hong Kong) da música ‘Dreams’, regravada com autorização da banda irlandesa The Cranberries — conquistou até quem nunca havia parado para pensar se acharia bonita uma música chinesa.
É clichê dizer, mas é a verdade. Assistir “filme cult” é arriscar não ganhar um final que o mainstream normalmente vende. É reconhecer que a vida dá voltas estranhas e uma hora, o universo se cansa de brincar e te entrega aquilo que demorou tanto para chegar.
Tocar o etéreo é falar do que é impalpável. São os amores que existem na intenção, no cheiro da correspondência alheia ou na melancolia de uma lata de abacaxi vencida. É um sentimento que flutua, sem nunca precisar pousar no chão absolutamente certo do “felizes para sempre”
