A Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek não morreu em um acidente de carro, mas foi assassinado pela ditadura militar em 1976. A conclusão está em um relatório da historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso, com mais de cinco mil páginas. A informação, antecipada pelo jornal “Folha de S.Paulo” nesta sexta-feira (8), ainda precisa passar pelo crivo dos conselheiros do colegiado para se tornar a versão oficial da Comissão.
O documento examinado pelos demais membros desde o último 1º de abril, quando a relatora o apresentou na 7ª Reunião Ordinária da CEMDP. Na ocasião, o colegiado decidiu adiar a votação para comunicar os familiares de JK sobre o teor das apurações, e ainda não definiu nova data.
“As decisões sobre o reconhecimento ou não de desaparecidos políticos são votadas em reuniões da CEMDP e aprovadas por maioria simples, conforme previsto em seu regimento. Ressalta-se que o relatório em questão segue em análise pelos membros da Comissão e ainda não foi submetido à votação”, informou o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), ao qual a CEMDP está vinculada.
A Comissão foi criada por lei em 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso, como órgão de Estado, com a finalidade de reconhecer pessoas mortas ou desaparecidas por atividades políticas entre 1961 e 1988 e buscar a localização de seus corpos.
A versão oficial mantida pela ditadura e endossada pela Comissão Nacional da Verdade em 2014 atribuía a morte de JK a um acidente automobilístico. Em agosto de 1976, o Opala que levava o ex-presidente e o motorista Geraldo Ribeiro trafegava pela Rodovia Presidente Dutra, na altura de Resende (RJ), quando invadiu a pista contrária e bateu contra um caminhão, supostamente após uma colisão com um ônibus. Os dois ocupantes morreram no local.
Contudo, comissões estaduais da Verdade de São Paulo e de Minas Gerais, além da comissão municipal paulistana, defenderam a tese de atentado político. A CEMDP informou que o pedido de reabertura do caso partiu de Gilberto Natalini, ex-presidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo, e de Ivo Patarra, logo após a reinstalação do órgão.
Desde novembro de 2024, a relatora Maria Cecília Adão trabalhou em articulação com pesquisadores do tema e elaborou o documento a partir de elementos públicos, como um inquérito do Ministério Público Federal (MPF) de 2019. A perícia do engenheiro Sergio Ejzenberg, contratada pelo MPF, contestou a hipótese de acidente e rejeitou a tese de que o Opala tenha sido atingido por um ônibus antes de se chocar contra a carreta. Esse laudo serviu de referência para o relatório da CEMDP.
Em fevereiro de 2025, o governo Lula determinou a reabertura do caso com base no laudo de Ejzenberg. Agora, o parecer da historiadora reacende o debate sobre a participação do regime militar e da Operação Condor; ação coordenada entre ditaduras do Cone Sul, apoiada pelos Estados Unidos, para eliminar lideranças regionais; na morte do ex-presidente que transferiu a capital para Brasília, conduziu o projeto “50 anos em 5” e teve os direitos políticos cassados pelo golpe de 1964.
