Quero falar de utopia. De sonho. Futuro. Não sei por onde começar, a não ser por isto: a intenção e a admissão do fracasso. Peço sua ajuda, caro leitor ou leitora.
Penso com a respiração aturdida que não vivemos tempos propícios à esperança. E talvez isso explique minha agonia em tratar dela, direta e indiretamente.
Mas também penso, com os olhos piscantes que Deus me deu, que é justamente aí que está ela, a almejada esperança dos nossos dias. Eu soluço. Não tropeço, devo dizer. Vou firme.
Vou em direção ao dia seguinte. Vou, mesmo sabendo que poderia muito bem sentar-me à beira do caminho e sofrer em silêncio, ou me alegrar sem razão, a curtir o aroma das flores que crescem à margem, apesar das realidades de cerrado devastado.
Como crer em Deus, diante dos homens que habitamos? Como não crer na humanidade, diante de Deus que comungamos? Não há perguntas fáceis para as respostas que presenciamos na rua, nos noticiários, em casa.
Imagino que você esteja a me dizer: mas não foi sempre assim, o mundo? Não é isto, a vida desde que nós fizemos verbo e o verbo comeu a maçã? Não é o futuro uma conquista inglória a cada passado conquistado?
Não há conquista nas derrotas que acumulamos, você certamente está a acrescentar no que está a me falar sobre tudo, sobre o que nos aguarda. O que vem lá é o que jamais vamos querer repetir. Pois bem.
Diante de tal inevitabilidade só posso indagar: mas, sendo assim, o que faço com as memórias que me afagam e me aquecem e me enternecem? Com o meu pai vivo na lembrança? Os amigos que se abraçam ao meu santo espírito juvenil?
No contrapasso – quase escrevi descompasso, e já não sei se foi erro, defesa ou lapso de esperança –, a visão se recompõe: onde mora o futuro? A utopia? O assobio das asas dos bem-te-vis? Onde mora que possa me rever um dia?
Meu celular me leva embora a todo instante. Minha necessidade urgente de sobreviver me mata por minuto sem labor. Os gestos dos que me roubam a carteira no trânsito, no Congresso, nos governos, me acusam, antes que eu os contenha.
Não fosse já a dúvida sobre o passado, e a dor de viver sem futuro, há essa premência de estar presente, e estar presente não é o melhor dos mundos, é tão somente agora, pra já, o tempo que não tenho por que ser meu, por eu não ser de verdade e por falta de um saber que me estabeleça em meio aos infinitos depois e antes.
Tenho facilidade de marcar compromissos. São minha doce tentação, o desejo que me guia. Isso é perseverança, reconheço. Paciência, percebo. Fé, com certeza (ainda não a abandonei; logo, não fui de todo abandonado por ela).
Faço compromissos comigo que não cumpro. E desfaço. Como quem costura pingos de chuva, atando nuvens ao chão. Vou indo, feito enxurrada dos sonhos nas veias de alguém que nunca existiu – ou só ainda não existe.
