O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira (22), durante o discurso de abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que o Brasil não aceitará interferências externas em seus assuntos internos. Em um dos principais trechos da fala, declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
A declaração ocorreu em meio à defesa da soberania dos países latino-americanos e caribenhos. Lula afirmou que a região enfrenta pressões decorrentes da proximidade geográfica com os Estados Unidos e criticou o que classificou como tentativas de influência estrangeira sobre processos políticos nacionais.
Lula critica interferência em eleições
Ao tratar da situação política da América Latina, Lula afirmou que o mundo voltou a assistir à ingerência externa em processos eleitorais e à divisão de países em zonas de influência.
O presidente citou Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba ao defender o princípio de autodeterminação dos povos. Segundo Lula, cada país deve encontrar seus próprios caminhos políticos sem interferência externa.
A soberania e a não interferência em assuntos internos já estavam entre os temas previstos para o discurso brasileiro na Assembleia Geral. A agenda também incluía a defesa do multilateralismo e a reforma do Conselho de Segurança da ONU.
Eleições brasileiras entram no discurso
Lula também mencionou as eleições brasileiras e alertou para o uso de redes de desinformação durante a campanha.
Segundo o presidente, o Estado brasileiro estará atento a possíveis tentativas de interferência e não permitirá ações que, em sua avaliação, possam afetar a vontade popular.
A fala ocorre poucas semanas antes das eleições de outubro e depois de Lula já ter afirmado publicamente que pretendia levar à ONU uma mensagem contra interferências estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.
O presidente afirmou ainda confiar nas instituições e no sistema eleitoral brasileiro.
Críticas ao cenário internacional
O discurso também abordou a situação da democracia e o funcionamento das instituições multilaterais.
Lula afirmou que a democracia voltou a estar sob pressão e defendeu uma atuação internacional baseada no diálogo, na negociação e no respeito ao direito internacional.
A reforma do Conselho de Segurança da ONU aparece como uma das principais bandeiras diplomáticas do Brasil. O governo brasileiro sustenta que a estrutura atual do órgão precisa ser atualizada para refletir a configuração contemporânea do mundo.
Combate ao crime deve ter cooperação internacional
Na área de segurança pública, Lula rejeitou a possibilidade de participação de forças estrangeiras no combate ao crime organizado em território brasileiro.
O presidente defendeu, em contrapartida, cooperação internacional para enfrentar problemas que ultrapassam fronteiras, especialmente o tráfico de armas e a lavagem de dinheiro.
Segundo Lula, o Brasil apresentou aos Estados Unidos uma proposta de cooperação para combater recursos de organizações criminosas brasileiras movimentados no exterior.
Clima, saúde e desinformação
Lula também levou ao discurso temas relacionados à ciência, saúde pública e mudanças climáticas.
O presidente criticou a circulação de informações falsas sobre vacinas e outros temas científicos. Também defendeu a atuação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e afirmou que o enfraquecimento das instituições multilaterais aumenta a vulnerabilidade dos países.
Na agenda ambiental, Lula criticou a redução do espaço ocupado pelo tema climático em fóruns internacionais e defendeu a retomada das discussões sobre mudanças climáticas.
Relação com os Estados Unidos
A fala ocorre em um momento de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Lula e o presidente norte-americano Donald Trump participam da Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira, mas não havia confirmação de encontro bilateral entre os dois antes do evento.
O tema da soberania brasileira ganhou espaço na preparação do discurso. Na véspera da Assembleia, Lula já havia afirmado que o Brasil é um país soberano, com economia forte e que exige respeito nas relações internacionais.
A participação de Lula na Assembleia Geral marca sua 11ª presença no tradicional encontro de chefes de Estado da ONU como presidente da República. O presidente retorna ao Brasil ainda nesta terça-feira (22).
O discurso consolida a soberania, a defesa do multilateralismo e a rejeição à interferência externa como eixos centrais da mensagem brasileira no principal fórum diplomático das Nações Unidas.
