Janeiro foi o mês de processar a despedida para o universo de Hawkins. E se tem algo que deixou a ressaca do “final agridoce” um pouco menos ruim foi a música escolhida para os créditos finais. A canção “Heroes”, de David Bowie e Brian Eno, se tornou um verdadeiro “hino” de Stranger Things, encerrando a trajetória da série na Netflix em sua quinta temporada.
O uso da faixa não apenas encerrou um ciclo narrativo, mas também gerou um impacto imediato no mercado fonográfico. Após o lançamento do episódio final na véspera de Ano Novo, em 31 de dezembro de 2025, a faixa registrou um aumento de quase 500% nas reproduções digitais em plataformas de streaming logo nos primeiros dias de janeiro de 2026.
O beijo no Muro de Berlim
A composição de 1977 nasceu durante o período em que Bowie vivia na Alemanha Ocidental, fugindo do consumo excessivo de drogas em Los Angeles. Gravada no Hansa Studio 2 — localizado a poucos metros do Muro de Berlim —, a letra foi inspirada por uma cena real observada por Bowie através da janela do estúdio.
Originalmente, o cantor afirmou que a letra sobre dois amantes que se encontram sob a sombra de uma torre de vigia era baseada em um casal anônimo. Anos depois, revelou-se que os personagens eram, na verdade, seu produtor Tony Visconti e a cantora Antonia Maass. Visconti era casado na época, o que levou Bowie a omitir as identidades por décadas para protegê-lo.
A dualidade técnica e emocional
Musicalmente, a faixa é um marco do art rock. Sua estrutura nos versos baseia-se em uma progressão hipnótica de dois acordes ($D$ e $G$), mas ganha profundidade emocional ao transitar para uma seção de ponte mais complexa ($C, Am, Em$), tudo envolto em camadas densas de experimentação.
O som contínuo e “chorado” da Guitarra de Robert Fripp foi obtido através de feedback controlado, posicionando o músico em diferentes distâncias do amplificador para sustentar as notas. Além disso, foi utilizado um EMS Synthi AKS (o famoso sintetizador de maleta) para criar as texturas atmosféricas que definem o tom futurista e melancólico.
Outra peculiaridade é a performance vocal de Bowie, que gravou os vocais com três microfones posicionados em distâncias progressivas (20 centímetros, 6 metros e 15 metros). Conforme a música cresce, sua voz atinge um ponto de entrega emocional que simula o desespero e a resistência contra o muro.
O ciclo em Hawkins
Em Stranger Things, a música, caso alguns fãs não lembrem, percorreu um longo caminho antes de alcançar os créditos finais da série:
- Temporada 1: A versão orquestral e lenta de Peter Gabriel (lançada em 2010 no álbum Scratch My Back) tocou quando o corpo (falso) de Will Byers foi retirado da pedreira.
- Temporada 3: A mesma versão de Gabriel encerrou o ano, acompanhando a leitura da carta de Hopper para Eleven, simbolizando uma despedida dolorosa.
- Temporada 5 (Final): A série optou por retornar à versão original de David Bowie de 1977.
De acordo com Ross Duffer, um dos criadores da série, a sugestão de utilizar a faixa original de Bowie partiu do ator Joe Keery, o responsável por dar vida a Steve Harrington.
A escolha foi considerada “correta e adequada” para o encerramento, funcionando como uma ponte entre o horror sobrenatural e a humanidade dos personagens que foram, de fato, “heróis por apenas um dia”.








