Ele morreu hoje, sábado, 30 de agosto de 2025.
Já estou com saudade de Luís Fernando Veríssimo. Suas palavras eram as exatas palavras de todos nós no dia-a-dia, mas como sorriam espantosamente. Como nos faziam diferentes.
Seus pensamentos em rodamoinhos tinham um início inesperado e fim incerto, se fim, como uma árvore que resplandece ad infinitum, balouçando, tergiversando, surpreendendo, espetando os vazios alheios.
Ou seria uma rosa expandindo-se em beleza e suspiros pelos vastos incontidos horizontes da imaginação? Ou: o próprio Universo alargando-se, segurando o riso, para depois explodir em gargalhadas, do jeito que fazemos em particular quando topamos com algo inteligente, espirituoso, inevitável?
Nunca senti crônicas tão gostosas descendo pela alma como as crônicas bem servidas por Veríssimo. De uma receita própria – coisa de Veríssimo pai para Veríssimo filho: eu creio -, uma fortuna específica de sensações a cada naco de leitura. E em produção contumaz, desmedida, sem trégua, simplesmente inesgotável.
Não me diga que os cronistas passam, as crônicas ficam. Porque ficam: na memória, nas reedições, nos reencontros promovidos pela saudade, pela memória e pelos acasos. Ficam à espreita, sempre. Ficam de tocaia, enquanto olhamos – diriam os santos cronistas antecessores – de soslaio. Claro. Evidente.
Tenho desde hoje saudade das crônicas, das palavras, do Luís Fernando Veríssimo de hoje cedo, na página do jornal, e de amanhã, no lugar de costume para leitores fiéis e novos. O que o tempo fará sem aquele seu olhar que parecia triste, mas era irônico?; com a sua melancolia ao ritmo do saxofone?; sem seus traços, que aturdiam, cobras soltas, livres, temáticas, pontuais, geniais?
Boa sorte às gerações sem Veríssimos. Embora para as seguintes ele possa nascer como primeira vez com obra completa, não será o mesmo o coração de agora. Vou ali, urgentemente, saudadissimamente, consultar o Analista de Bagé.