Vejo com tristeza e apreensão os ataques a imagens religiosas, templos e símbolos de fé.
Não importa se o alvo é católico, evangélico, judeu, muçulmano, espírita ou de uma religião de matriz africana. Quando alguém invade o espaço sagrado do outro e destrói aquilo que ele reverencia, ultrapassa a fronteira da discordância e entra no território sombrio da intolerância.
No caso de Nossa Senhora Aparecida, há ainda uma história brasileira de mais de três séculos. Em 1717, os pescadores João Alves, Felipe Pedroso e Domingos Garcia lançavam suas redes no Rio Paraíba do Sul, na região de Guaratinguetá, quando encontraram primeiro o corpo e, depois, a cabeça de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição.
Era uma imagem de terracota, originalmente policromada. Com o passar do tempo, tornou-se escura. Fontes históricas do Santuário atribuem essa transformação à permanência nas águas e no lodo do Paraíba e, posteriormente, à fumaça das velas e candeeiros diante dos quais permaneceu por décadas. Portanto, é simplificação histórica imaginar que a pequena imagem tenha sido originalmente concebida como representação de uma mulher negra.
Mas aqui começa uma história ainda mais bonita. O tempo escureceu a imagem, mas o povo brasileiro deu significado à sua cor. Aquela pequena Senhora de barro foi sendo identificada com o Brasil pobre, simples e mestiço. Sua coloração passou a carregar também um simbolismo de proximidade com negros, indígenas e com o povo que construiu este país. O próprio Santuário registra essa dimensão simbólica da imagem escurecida.
E então faço outra pergunta. Se alguém olhar para Nossa Senhora Aparecida e enxergar nela uma mulher negra, qual é o problema?
Nenhum. Ao contrário. Num país marcado pela escravidão e pelo preconceito racial, é extraordinariamente significativo que milhões de brasileiros se ajoelhem diante de uma pequena imagem escura e a chamem simplesmente de Mãe. Por isso, se algum agressor eventualmente enxergar naquela cor mais uma razão para seu desprezo, teremos algo ainda mais preocupante: a intolerância religiosa encontrando-se com o preconceito racial.
Não afirmo que essa seja a motivação de todo ataque. Seria irresponsável fazê-lo sem provas, mas é uma reflexão que o Brasil precisa enfrentar, até porque destruir Nossa Senhora Aparecida não é novidade.
Em maio de 1978, a imagem original sofreu um atentado na Basílica Velha e se partiu em mais de duzentos pedaços. Foi levada ao Museu de Arte de São Paulo e reconstruída pela restauradora Maria Helena Chartuni, num trabalho minucioso que durou 33 dias.
Quase meio século depois, continuamos assistindo a manifestações de intolerância contra símbolos religiosos e isso me leva à pergunta que considero inevitável: Onde está Deus dentro dessas pessoas? Que fé necessita quebrar a imagem do outro para demonstrar sua força? Que religião precisa humilhar outra religião para provar que possui a verdade?
Jesus poderia ter discordado de muita gente. E discordou. Mas deixou como ensinamento fundamental o amor ao próximo. E o próximo não é apenas quem pensa como nós. O próximo é também quem reza de outra maneira, frequenta outro templo, chama Deus por outro nome, ou sequer acredita Nele.
O católico tem o direito de venerar suas imagens. O evangélico tem o direito de não venerá-las. As religiões de matriz africana têm o direito de preservar seus terreiros e seus símbolos. Judeus, muçulmanos, espíritas e todas as demais manifestações religiosas merecem a mesma proteção e o mesmo respeito. Isso se chama civilização. Isso se chama liberdade e, para quem acredita em Deus, deveria chamar-se também fraternidade.
Pode-se quebrar uma imagem de barro. Pode-se destruir uma cruz, uma Bíblia, uma menorá, objetos de um terreiro ou qualquer outro símbolo material. O que não se consegue destruir a marteladas é aquilo que esses símbolos representam no coração de quem acredita.
Talvez seja essa a grande contradição dos intolerantes. Pretendem defender Deus praticando exatamente aquilo que nos afasta Dele, porque, se Deus é amor, ninguém chegará mais perto Dele pisando na fé do semelhante.
