O segundo turno decidirá se Luiz Inácio Lula da Silva continuará no Palácio do Planalto ou se Flávio Bolsonaro assumirá a Presidência da República. Mas as urnas de domingo já decidiram algo quase tão importante quanto isso: com quem o próximo presidente terá de governar.
E o Congresso que emerge das eleições de 2026 apresenta uma característica bastante nítida: há um fortalecimento das forças situadas à direita e à centro-direita do espectro político.
O dado mais visível está no crescimento do PL. O partido elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara dos Deputados. A federação PT-PCdoB-PV ficará bastante atrás, com 82 parlamentares.
No Senado, o fenômeno é ainda mais expressivo. O PL terá 28 dos 81 senadores. A Federação União-Progressistas terá 11; o PT, 9; o MDB, 8; o PSD, 5; o PSB, 4; e o Novo, 3.
São números que não permitem dizer que o próximo presidente encontrará uma maioria automática à sua disposição, mas permitem outra conclusão: o eixo político do Congresso está situado à direita do PT.
Isso produz situações bastante diferentes para os dois candidatos que chegaram ao segundo turno. Se Flávio Bolsonaro vencer, encontrará no Congresso um conjunto expressivo de partidos e parlamentares com maior proximidade em temas econômicos, fiscais e de costumes.
Isso não significa submissão. União, PP, Republicanos, PSD, MDB e outras legendas possuem interesses próprios, governadores, prefeitos, projetos regionais e ambições políticas. Não entregarão seus votos gratuitamente ao Palácio do Planalto.
O presidencialismo brasileiro continuará sendo de coalizão. Flávio, portanto, mesmo encontrando maior identidade ideológica no Congresso, precisará negociar. A experiência do governo de Jair Bolsonaro, especialmente em seu início, mostrou que proximidade ideológica não substitui articulação parlamentar.
Com Lula, o problema seria diferente. Caso seja reeleito, ele começará um novo mandato sabendo que seu campo político é minoritário no Congresso.
Isso o obrigará a repetir, provavelmente em escala ainda maior, uma fórmula conhecida dos governos petistas: compor com o centro e setores da centro-direita para construir maioria parlamentar. Significa negociar ministérios, presidências de comissões, relatorias, orçamento e prioridades legislativas, não necessariamente por fraqueza pessoal do presidente, mas pela própria matemática produzida pelas urnas.
E existe nesta ópera uma novidade particularmente importante: o Senado. Durante muito tempo, a atenção política brasileira concentrou-se quase exclusivamente na Câmara dos Deputados. A partir de 2027, talvez seja necessário olhar com atenção redobrada para os 81 senadores.
O PL terá sozinho 28 deles. E o Senado possui poderes extraordinários. É ele que aprova ou rejeita as indicações presidenciais para o Supremo Tribunal Federal. Também passam por suas sabatinas nomes destinados a instituições fundamentais do Estado. Isso significa que um eventual governo Lula poderá enfrentar dificuldades não apenas para aprovar projetos, mas também para fazer determinadas nomeações.
Com Flávio Bolsonaro, a relação inicial tenderia a apresentar maior afinidade política, especialmente porque o PL será a maior bancada da Casa. Mas nem mesmo 28 senadores vão resolver tudo. Para aprovar um ministro do Supremo são necessários pelo menos 41 votos. Ou seja: novamente será necessário negociar.
Talvez essa seja a primeira grande lição política das eleições de domingo. O eleitor brasileiro não escolheu apenas pessoas. Escolheu uma correlação de forças e ela parece indicar um país eleitoralmente dividido na disputa presidencial, mas um Congresso deslocado para a direita e para o centro-direita.
Por isso, qualquer que seja o resultado do segundo turno, o próximo presidente não irá governar sozinho. Se for Flávio Bolsonaro, terá maior proximidade ideológica com parcela importante do Congresso, mas precisará transformar afinidade em maioria política. Se for Lula, terá diante de si tarefa mais complexa: construir maioria parlamentar entre forças que, em muitos temas, pensam diferentemente de seu governo.
No presidencialismo brasileiro, ganhar a Presidência é apenas a primeira eleição. Depois começa outra, diária e permanente, dentro do Congresso Nacional. As urnas ainda vão escolher o presidente. O Congresso com o qual ele governará, porém, o Brasil já escolheu.
