Certos dias, depois de chover muito, a gente ia em bando para os lados do curtume, onde hoje é um bairro de nome desconhecido por minha memória – e que assim permaneça até o fim dos tempos -, e tinha lá um poço de água branca, pastosa, um poço grande, luminoso, fundo, que era disputado a nados por todos que não tinham noção do que estavam fazendo, mas que faziam assim mesmo, porque aquilo era viver.
Muito capaz que eu tinha uns oito anos, menos quem sabe, nem quero saber exatamente. A água estava fresquinha de sonhos todas as vezes, acumulada da noite, com o aguaceiro que caiu e lavou as ruas, lavou os pastos e quase levou os telhados, e que agora lavava a gente aos pulos e gritos de somos os heróis do pedaço. Minha mãe nunca soube disso, a não ser depois dos 70 anos, mas aí era um pouco tarde pra ela se preocupar. E não é que ela se preocupou? Meu pai riu bastante.
Naqueles dias e bem naquelas horas o que mais havia entre nós era ausência do resto do mundo. Tenho saudade desse tempo em que o mundo não existia da porta pra fora de Vianópolis. Que mundo poderia haver que não fosse este em que a gente bordava e aprontava e fazia acontecer? Em que o caminho para o curtume não levava a lugar nenhum, a não ser ao poço d’água suja, quente, contagiante, que nos jogava pra cima no instante em que pensávamos em mergulhar. Veja se pode.
Tinha um menino, quem disse que lembro o nome dele, esse menino saltava contorcendo-se da beira até bater no fim lá embaixo, depois voltava rapidinho e novamente se jogava de cabeça pra baixo, de barrigada, de costas meio de prancha, e era muito engraçado, a gente ria e tentava imitar, virava uma fila de desengonçados e inacreditáveis sortudos perdidos naquela imaginação. Quem não sabia que aquilo jamais poderia ser de verdade? Claro que não podia, mas quem não se imortalizaria, meu Deus?
A ausência de adultos nos tirava da ilusão da cidade, ninguém ia nos dar razão, de jeito nenhum, como se aqueles momentos fossem pura realidade e a comunidade constituída em prefeitura e fórum fosse a ficção da modernidade material contra nossos interesses de conquista espiritual. Ninguém era desmascarado pelos representantes da lei e da ordem porque o sol se misturava com a chuva e, minutos depois de nos encharcar até o outro lado da pele com a lama, a gente já tava seco e pendurado nas mangueiras ali perto. O sol nos protegia fizesse chuva ou gritaria dos pais.
Lembro como hoje o que acontecia. Choro feito ontem o que não acontece hoje, na verdade eu fico rindo, lembrando de cada pedacinho de tarde, e em toda vez que faço algo na vida procuro aquela hora, aquele lago, aquela molecada para invadir meu coração depois da chuva, e deixo que isso me conquiste de um modo que nem preciso pensar nas consequências do que essas lembranças implicam porque elas são a água barrenta que sustenta o presente e o futuro, a que recebe meu corpo e devolve a alma em salto mortal para a vida.
Eu me inundo com as boas lembranças. As ausências tomam banho em mim. Engraçado como gosto desse refúgio do passado, como ele preenche meu futuro, porque não estou propriamente neste momento em que escrevo, estou lá na frente, a caminho do curtume, sonhando com o exato segundo em que vou chegar, atirar a camiseta pro lado, o chinelo pro alto e me ausentar de todo mundo e do resto do mundo para ser só eu mesmo e a poça imensa da chuva me deixando mergulhar fundo em mim. Não estou nem aí se as palavras não dão conta de mim. Eu salto no fundo.
