Governo e oposição disputam a vice de Daniel Vilela (MDB) neste momento. Todos torcendo contra Ronaldo Caiado.
Caiado ligou o liquidificador da crise na base governista ao definir Adriano da Rocha Lima na chapa da reeleição do governador. E acendeu a esperança dos inimigos, que torcem pela implosão aliada e a queda do favoritismo de Daniel.
Quem vai desligar o liquidificador? Vai? Quando?
Mas isso é colateral.
O que está em convulsão dentro do copo de vidro não é a vice. A definição do nome do vice é um ingrediente. Talvez um abacate com casca e caroço. E só.
Todos estão no vácuo do poder em Goiás. Na rota da transição de ciclo político no Estado, em andamento por força da natureza histórica, humanamente inevitável.
Está em disputa o espólio do presente político e a herança de líderes como Iris Rezende, Maguito Vilela, Otávio Lage, Henrique Santillo, Nion Albernaz, entre os mais recentes.
Nomes que estão na História, não estão mais aqui para garantir espaço aos seus grupos, que se dissolveram, com os expoentes correndo atrás de novos agrupamentos.
O último dessa geração, Caiado, está se despedindo. Apagando essa luz. Joga seu jogo derradeiro. De despedida.
É cada um por si. Em outras palavras, o que se vê é guerra armada pela sobrevivência e pela chance de ser O novo coronel. Ou O novo líder, como os que se foram. O da situação e O da oposição.
Traduzindo mais: o objetivo comum é o mais pragmático dos objetos de cobiça da política comezinha. É a partilha presente e futura do bolo do poder, com o governo estadual à frente.
Caiado quer garantir 2030. Todos os demais querem tomar dele e de Daniel Vilela o poder de 2026 e 2030 em diante.
Daniel é candidato à reeleição em 2026, não pode ser candidato de novo ao governo em 2030. Mas tem como foco manter o controle do jogo agora, depois é depois. Planeja assegurar o poder por décadas. É novo, quer muito mais.
Exatamente o que Marconi Perillo (PSDB) quer pra ele e ninguém mais: mais poder agora, em 2030 e depois. E depois. Vinte anos no comando do Estado deram fome, e não saciedade. Não é Goiás pode mais. É Marconi pode mais. Ele ainda tem idade para isso e está no jogo.
Wilder Morais, Ana Paula Rezende, Gustavo Gayer, o PL e o bolsonarismo veem oportunidade imperdível na direção dos adversários: espaço aberto para se estabelecerem por quatro, vinte anos, ou até quando der, no comando do Estado.
Até o PT cobiça algo, embora se comporte como caititu no quintal.
Luiz do Carmo e o grupo que o sustenta não veem outra coisa senão conquista do poder pela frente. Zé Mário Schreiner disfarça dizendo que não pensa em reeleição, caso vire vice de Daniel. Alguém acredita?
Gustavo Mendanha luta desesperadamente atrás de quê, senão de um lugar de destaque nessa nova ordenação? E Vanderlan, o que almeja? E Sandro Mabel? A lista é grande, e se estende para áreas variadas. Chega a Marcelo Baiocchi, Rafael Lara, André Rocha, e outros, gente que nem é cogitada por enquanto.
Daí o ranger de dentes. Daí a agonia na hora da definição do vice, do Senado, e de uma candidatura a deputado federal, ao menos.
A convulsão do liquidificador tende a baixar o nível gradativamente com cada decisão consumada. E o que sairá do copo será o próximo capítulo de algo novo, não necessariamente bom.
A ebulição é refrega de momento. A guerra vai continuar, em outros termos.
Não foi menor quando Caiado e Iris bancaram Daniel Vilela como vice. Também houve protestos e ranger de dentes no MDB e na base caiadista.
Iris e Caiado bancaram Daniel. Seguraram as pontas e transformaram o negativo em positivo. E é o que será cobrado agora de Daniel.
Daniel tem o poder da caneta. Tem poder pra nomear e demitir caiadistas. Fazer a substituição de 2º e 3º escalões imediatamente, em vez de esperar dois ou três meses, em caso de reeleição.
Caiado tem o poder popular: 87% de aprovação na recente Quaest. Pode demitir o candidato Daniel, ainda que vá junto na implosão. Pode jogar a eleição para o segundo turno. Pode complicar o que pode ser resolvido no 1º turno. Sem caneta, ele tem poder.
Não é ato de imposição de Caiado que se vê. É política sendo praticada: às vezes suave, outras vezes bruta. Igual a que os descontentes estão fazendo em reação. Nenhuma novidade.
Na união de Caiado-Iris-Daniel, a oposição não conseguiu mudar o curso dos fatos nem virar o jogo. A questão é: este ano vai conseguir?
O liquidificador da política nunca desliga.
