Cada candidato com seu ismo, em Goiás. Cada eleitor com sua História.
Wilder Morais (PL) se sustenta na expectativa de que o Bolsonarismo de Jair Bolsonaro vai fazer o chão tremer na campanha e reverter o favoritismo de Daniel Vilela (MDB) e tirar de Marconi Perillo (PSDB) a atual primazia da polarização com Daniel.
Daniel Vilela tem no Caiadismo de Ronaldo Caiado a perspectiva de enfrentamento ao bolsonarismo. E no Emedebismo. Daniel preside o MDB, maior partido do Estado e que tem nos ex-governadores Iris Rezende e Maguito Vilela, seu pai, expoentes de referência de poder.
Caiadismo e o Emedebismo, com o Irismo (e, menos expressivo, o Maguitismo), já foram inimigos. Engataram namoro em 2014 e se casaram em 2018, na chapa Caiado governador e Daniel vice. Na época, o Bolsonarismo nascia, não tinha expressão no Estado. Ajudou os dois.
Em 2024, a história foi diferente. Caiadismo, Irismo e Emedebismo, juntos, derrotaram o Bolsonarismo na eleição para a prefeitura de Goiânia. Elegeram Sandro Mabel (União Brasil), com participação especial do Lulismo, dando uma mãozona a Mabel no 2º turno.
Marconi tenta este ano ressuscitar o Marconismo, que vigorou por 20 anos em Goiás, desde que ele chegou ao governo, em 1998. O Marconismo foi símbolo de arrasa-poder, identidade de uma oposição que chegou ao Palácio das Esmeraldas e se enraizou nas instituições. Seus expoentes, porém, se espalharam. Compõem hoje o Caiadismo e o Bolsonarismo.
O PT goiano não tem candidato. Mas tem lulismo, com votação de perto da metade dos eleitores em Lula. O petismo não faz candidato competitivo a governador, mas o lulismo, sim, está sempre no horizonte das eleições. Juntos, já atingiram cerca de 15% dos votos.
O Emedebismo mantém-se como uma instância paralela ao Caiadismo. Uma variante do Irismo que chegou ao quase-poder com Daniel em 2022, e que agora está sentado na cadeira principal, sonhando com a reeleição. A permanência de Daniel no cargo consolidará a volta triunfal do partido ao centro do poder no Estado. Numa arquitetura articulada por Iris Rezende (último ato político antes de morrer) e Caiado.
Maior que o Emedebismo, o Irismo de Iris, assim como o Lulismo de Lula, sempre foi maior, e hoje vive uma divisão de corpos e alma: uma parte se mantém com Daniel e o Caiadismo, outra parte é puxada por Ana Paula Rezende, a filha que se fez vice de Wilder Morais e se filiou ao PL e seu Bolsonarismo. O tamanho dessas vertentes do Irismo será medido nas urnas, talvez – pode ser. Quem sabe?
O Irismo-Emedebismo mandou em Goiás 16 anos, a partir de 1982. Foi derrotado em 1998 pelo Marconismo, que vingou até a assunção do Caiadismo em 2018. O Lulo-petismo elegeu três prefeitos em Goiânia. O Emedebismo sobreviveu na prefeitura da Capital com Iris eleito e reeleito a partir de 2004, portanto com o Irismo no comando, e em aliança ou alternância de poder com prefeitos do Lulo-petismo.
O Bolsonarismo deu maioria de votos a Jair Bolsonaro presidente em Goiás desde 2018, mas no Estado segue como incógnita eleitoral. Falta o teste final das urnas para o Executivo. No primeiro, em Goiânia, como anotado, perdeu para o Caiadismo-Emedebismo-Irismo – e o Lulismo, de esguelha.
Esse exercício ajuda a pensar sobre como pode ficar a disputa no Estado este ano. Pode ser importante para entender para onde vão as forças em jogo. E onde tem tudo para ocorrer o desequilíbrio.
Será uma guerra da direita no Estado, já que Caiado (candidato a presidente), Daniel, Wilder e até Marconi se põem deste lado, contra o lulismo?
Vale uma pausa, antes.
O Lulo-petismo não tem candidato para decidir sozinho uma eleição em Goiás a favor da esquerda. Mas ajuda a direita. Uma das vertentes, em especial.
A esquerda ajuda uma das direitas porque pode ser decisiva para levar a disputa estadual para o 2º turno e, então, pesar na balança a favor ou contra no resultado final.
Foi assim que o PT, em Goiânia, favoreceu o eleito Sandro Mabel, candidato de Daniel e de Caiado (nesse momento, ainda com Ana Paula Rezende de cabo eleitoral ao lado deles) contra um nome do Bolsonarismo, apoiado por Wilder Morais.
Isso posto, dá para dizer:
A eleição de Goiás não será um simples Bolsonarismo X o resto.
Como se, por mais da metade dos eleitores goianos serem de direita (bem mais), como mostram as pesquisas, fossem bolsonaristas e votassem com o nome indicado, qualquer um. Em Wilder, por exemplo.
Nem todos são apenas Bolsonaristas, necessariamente. Mostra a História. Os fatos reforçam.
Mesmo que sejam, se apresentem assim, há nuances, há mais de um rego d’água nessa tirada de mina ou desvio de córrego.
No meio dos Bolsonaristas há Caiadistas, Emedebistas, Iristas, Marconistas e outros istas. Ismos que se bifurcam na hora do voto. Ou antes ou depois. Uns mais Bolsonaristas, outros menos. Depende.
O eleitor goiano que vai para as urnas em outubro é esse emaranhado de sentimentos e confusão mental, que às vezes é tratado como diferença ideológica, mas que não passa de pragmatismo de interesse ocasional.
A conta não é boa para Wilder. E não é exatamente animadora para Marconi.
Bolsonarismo é um ismo em xeque nacional (vejam as pesquisas), assim como o candidato de frente, Flávio Bolsonaro, alvo de denúncias.
E o Marconismo enfrenta o favoritismo do governismo e seus atalhos rumo ao poder. Também está em xeque, no Estado.
Favoritismo não é vitória antecipada. O xeque não é xeque-mate.
Porém, imaginar que um 2º turno entre Wilder e Daniel será uma barbada para o Bolsonarismo vai uma longa distância. E tem lideranças do Bolsonarismo animadas de verdade com a tese.
Como tem marconista comemorando o apoio anunciado de Marconi a Flávio Bolsonaro como garantia de apoio do Bolsonarismo em massa a ele em um eventual 2º turno sem Wilder.
É desconsiderar todo o contexto local. Ignorar a natureza da História e humana dos goianos. E esquecer que até o Lulismo, não sendo um petismo arraigado, entra na conta.
Na pesquisa interna feita pelo PT nos últimos dias para definir seu candidato a governador, saiu isto: o goiano quer continuidade.
Não será fácil quebrar essa vontade espontânea da população. Desafio para Luiz César Bueno, o candidato petista, mas igualmente para Marconi e Wilder, que pregam mudança. E isso tende a ser maior que o Marconismo e o Bolsonarismo. Basta conferir as eleições recentes.
O que só reforça, na balança de considerações tiradas de outras pesquisas e já tratadas neste espaço:
1
mudança não está na ordem do dia dos goianos;
2
ou os adversários de Daniel ajustam o rumo de suas campanhas, ou tratam de convencer o goiano, que anda contente com o que tem no atual governo, de que ele pode ter mais, como quer Marconi, ou de que Wilder é melhor para governar e isso basta.
No corpo a corpo, o Bolsonarismo vai mostrar sua cara na campanha. Mas, da mesma forma, o Marconismo vai se apresentar. Assim como o Caiadismo vai agir, com o Emedebismo. E o Lulismo.
Mais do que em uma batalha ideológica sem sangue e lágrimas, todos os ismos estarão em guerra aberta no campo eleitoral.
Considerar que Wilder vai crescer, e que Marconi está crescendo, é uma coisa. Desconsiderar que, do outro lado, Daniel não vai se mexer é ilusão de ótica estratégica.
Na História, os ismos disputam a eleição em Goiás. Nas urnas, não decidem a eleição. As massas são de manobra.
