A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (1º) a terceira fase da Operação Rent a Car, batizada de Galho Fraco II, com foco em suspeitas de que aliados do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) forjaram uma escritura pública de compra e venda de imóvel. O objetivo, segundo a investigação, seria dar aparência lícita a R$ 470 mil em espécie apreendidos em dezembro de 2025.
A autorização da operação partiu do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na decisão, Dino afirmou que há indícios de que parte dos R$ 15 milhões movimentados por empresas podem ter origem em recursos públicos ligados ao parlamentar.

A cronologia sob suspeita
O dinheiro vivo foi encontrado em um flat usado por Sóstenes em Brasília durante buscas da primeira fase da operação, em 19 de dezembro de 2025. As cédulas estavam em sacolas, com etiquetas de R$ 100 mil cada. À época, o deputado declarou que os valores eram provenientes da venda de um imóvel em Minas Gerais, quitada em espécie em 24 de novembro.
A PF, no entanto, constatou que a escritura da transação só foi lavrada em cartório no dia 30 de dezembro de 2025, ou seja, 11 dias após a apreensão. Para os investigadores, a data revela uma contradição central: o documento foi registrado depois da ação policial, mas afirma retratar uma negociação anterior.
“A própria análise policial ressaltou que a comunicação é datada de 30/12/2025, precisamente a mesma data em que a escritura foi formalizada. Esse aspecto cronológico assume especial relevo investigativo”, registrou a PF.
A ausência de lastro financeiro
Outro ponto levantado pela Polícia Federal é a inexistência de movimentação bancária que comprove o pagamento. Um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) não identificou saques de valores pelo comprador, Thiago de Paula, em data compatível com a negociação. A escritura, contudo, afirma que o pagamento foi feito integralmente em dinheiro vivo.
“Os interessados somente levaram a registro cartorário, após a apreensão do numerário, uma narrativa documental destinada a conferir lastro formal a uma alegada transação pretérita”, diz trecho do relatório.
O crime em apuração
Os fatos são investigados sob a ótica do crime de peculato, que consiste na apropriação ou desvio de recursos públicos por funcionário público em razão do cargo. A investigação teve origem em suspeitas de desvio de cotas parlamentares, com uso de empresas de fachada para justificar despesas fictícias.
A operação desta quarta não tem Sóstenes entre os alvos, mas sim advogados e empresários ligados a ele. Durante as buscas, a PF encontrou dinheiro em espécie escondido dentro de um objeto decorativo que simulava um livro falso, no endereço de um advogado do círculo do parlamentar.
Procurado, Sóstenes afirmou que ainda não havia tomado conhecimento da decisão. “Assim que souber, vou me manifestar como sempre fiz.”
