Estamos juntos, pai

Entre lembranças, fé e afeto, um filho transforma a memória do pai em narrativa sobre amor, identidade e eternidade.

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Elson Oliveira
Elson Oliveira, pai do Vassil Oliveira. Foto: arquivo de família

Eu ando torto.
Sempre andei torto. Eu nasci torto. Tortuoso é meu caminho. Mas não é isso que me define. Eu ando torto igual meu pai. Seu andar era pendente para um lado, o meu também. Quem me olha de costas, indo em frente todo tranquilo, não imagina o que vê. Só vê.
Não consigo compreender todos os significados de andar torto. Parecer com meu pai, no entanto, é o milagre do meu maior orgulho. Carrego meu pai no DNA. Carrego seus sentimentos na memória, no arrepio da alma. Sou herdeiro de sua imensidão. E sou este choro na sua partida.
Lembro de seu semblante o tempo todo. À minha frente surge um rosto machucado, macetado pela vida, um olhar assustado e melancólico, e o cheiro de terra, ardente como o dos homens que puxaram enxada. E me recordo de seu suspiro, com uma leve jogada de olhar para cima – anunciando Deus? –, quando queria falar de seus sonhos, seguido de um “Tá…”. Tá, com reticências e um suspiro puxado de seu coração carregado de utopias.
Aos 81 anos, ele sonhava por outros 81, nunca por menos. Aos 81 anos, embora parecesse triste às vezes, e descontente com as ausências – amigos se foram, filhos se demoram, saúde prolonga a paz –, ele sempre olhava para a frente. De costas, torto. No horizonte, a imaginação.
Pouco antes dos 81 anos, adotou uma gata. A Joaninha, de quem cuidava com todos os seus afetos, todas as suas virtudes. Como se desfiasse uma rede de bondades humanas que estendia ao bisneto Henrique, que o fazia lambuzar-se de carinhos.
Um ser assim ilumina canteiros de hortas e jardins. Falar nisso, é conhecida sua mão boa para flores. Em frente a casa onde ele e minha mãe moravam, as flores eram dele, e as verduras e legumes eram da minha mãe. Abençoados, abençoavam e tudo sempre floresceu.
Não acredito ter sido o pior momento de sua vida – porque eu nunca o vi sofrer tão explicitamente –, em vez de morrer ele reviveu. Ele perdeu uma eleição para os amigos. Foi derrotado em sua terra, e com a ajuda de arautos da instituição que custava a sua fé.
Resignado, transformou tudo em História, em histórias, em literatura. Foi pai de um filho que não concebeu, mas que adotou, dedicando-se de espírito santo à sua existência por longos 18 anos, contrariando médicos e a ciência, que previa um ano de vida, dois, quem sabe.
Em todos os momentos difíceis de sua vida, meu pai sobreviveu para contar histórias. Causos, novelas, romances, fatos, tudo floresceu de sua mente. Era aí que morava seu otimismo, sua gana por imortalidade. Nos últimos momentos de vida, ele repetia: “Eu quero viver. Eu quero viver.” Não era “não me deixe morrer”. Era “eu quero viver”.
E parecia pular sobre nossos olhares atônitos, impotentes, apaixonados e, por isso mesmo, atônitos não com sua elevação, ou a finitude do mundo, e sim com a falta de poderes divinos diante do que sabemos – acreditamos com toda fé possível – de Deus, que tudo pode, inclusive poderia revivê-lo.
Se ele me ouvisse falar isso, danaria comigo. Do jeito dele, fechando a cara e servindo de bandeja sabedoria secular do cerrado, sua raia. Onde vejo miudez humana, ele via vontade do Pai. O Pai maior. O Pai celestial que ele amava e seguia com devoção absoluta.
Nos últimos tempos, era um terço, dois, um rosário por dia, mais as missas, os cursos para noivos, as rezas várias para onde ia chamado junto com minha mãe. Ele conversava com Deus. Na pandemia, quase morreu. Chegou muito perto, como contou em livro em que o personagem principal não é ele nem a Covid, mas sua fé. A sua fé vence no final.
Vendo-o no caixão, eu sabia: não era ele que estava ali. Não era eu que estava aqui. Meu pai tem vida eterna cada vez que respiro, porque eu, eu sou assim, torto na realidade. Não consigo ver morte em tanta vida que dele emana. Sua presença é meu manto de resistência contra a vontade de me espedaçar, em vez de voar, diante de abismo.
Quando ele adoeceu, foi doloroso vê-lo no hospital. Foi agressivo para os pensamentos percebê-lo com as asas devastadas depois de tantos anos. Era inevitável. Estava claro que o que estava acontecendo era definitivo para o corpo. Mas havia também a sensação, mais, a certeza implícita de que ele era o exemplo vivo de uma vida plena, e isso me apaziguava.
Era seu jeito meio torto de não se deixar vencer. Era minha alegria explícita de ver um pai maior que o fim. Sei que não há lógica em tudo que escrevo, porém é disso que estou falando o tempo inteiro: ele e eu não somos certo, nem incertos, não somos só nós dois; somos o universo. Somos tortos. Assim, pendidos, mas nunca cambaleantes.
Me impressionava como também depois da Covid ele passou a se expor para a gente. “Meu filho, tô com saudade.” “Meu filho, você não pode fazer isso não, sumir da gente.” “Meu filho, eu te amo.” Ouvi tantas declarações de amor dele nos últimos anos que nem me cabe contar, para não me perder na razão do significado delas.
Eu sorrio cada vez que me lembro do meu pai, ainda que lágrimas escorram e eu tente escondê-las das pessoas que me cobram exatamente para chorar. Eu me lembro do sorriso dele, e procuro imitá-lo calorosamente, porque sem transbordar amor não consigo me parecer com meu pai.
Descobri não faz muito tempo que a melhor lembrança que carrego sobre nós dois juntos é uma de quando eu nem sei direito quantos anos tinha, algo como seis, oito, dez anos, por aí. De quando ele ia para Passa Quatro fazer declarações de renda de fazendeiros e amigos, ficava numa sala nos fundos da casa dos meus avós recebendo as pessoas, e eu ia junto.
Aquelas horas de trabalho sempre abriam espaço para o que ele mais gostava: cantar. Os parceiros de cantoria chegavam, o violão chamava e o instante era de modas ao estilo Tonico e Tinoco, Liu e Léo, provavelmente as duplas que ele mais admirava. Meu pai tinha uma primeira suave, leve, que ecoava em meus ouvidos como o doce de ovo da minha mãe desce por meu corpo atribulado.
Numa dessas vezes rezei – juro, pedi a Deus encarecidamente – que ele me desse voz. Eu era desafinado, sempre fui. E tinha um sonho: cantar como meu pai. Cantar com meu pai. Ao nosso Pai eu disse que trocaria qualquer habilidade, talento, dinheiro, qualquer coisa, pela graça de ser afinado e poder cantar.
Não questiono Deus porque sou assim. Por ele não ter mudado as coisas. Afinal, meu pai e eu, muitos anos depois, diante de um pelotão de fuzilamentos da realidade, convergimos para um ponto em comum: as palavras. Nunca desafinados, sempre tortos, somos uma coisa só: contadores de histórias.
Cantamos e louvamos a vida com o que fazemos. Ele advogado, eu jornalista, nós dois escrevinhadores por erupção da vida e outras razões que desconheço. Na imaginação, não há diferença quando olham a gente de costas. Vamos os dois em frente, cada um torto à sua maneira, admirando o jardim à volta, sem tempo para o ponto final.
Tenho algumas músicas do meu pai, ele cantando. Guardo para a hora certa. Não sei quando e nem para quê. Na hora certa saberei. Porque sua substância é indelével. É como um tesouro que não se vende, que não se nega, que jamais se entrega aos queixumes e aos desvalores do dia a dia: está lá; é o brilho eterno da vida.
Estou aqui. Com meu pai. Pode não parecer, mas isso só pra quem olha naquele momento em que um fica à frente do outro. As imagens se confundem. Espere pra ver: quando os passos trocarem de lugar, ficará claro: somos um, somos dois, somos a multiplicação das nossas diferenças e dos nossos ideais. E ponto.
Eu ando torto, mas esse é meu certo. Meu pai parece incerto, mas esse é seu jeito de ser pra sempre. Hoje ele está por perto e está plantado em sua terra natal, São Miguel do Passa Quatro. Lá, ele foi o primeiro prefeito. Lá, ele foi o criador de uma cidade. Lá, ele morreu, viveu, perpetuou-se, como em tudo.
Contou como um povo viverá. Escreveu História, estórias, deu vida. Sabem qual era seu slogam na gestão? “Caminhando para o futuro.” Não tem erro, apesar da ilusão à vista. Meu pai preparou-se para ser este que nos abala o coração e para ser aquele que mostra como são grandes os gestos da mão que se solta nas cordas de um violão.
E vejam: o texto definitivo torna-se, aqui, infinitivo. É o meu pai me escrevendo. À mão. Com os contornos de uma a pena leve da sabedoria. O criador sendo criatura, ante uma obra inteira. Ele não para. Eu não me contenho. Estamos juntos, pai.

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