O que torna cada versão de Nosferatu única no cinema

Como cada diretor transformou o vampiro em símbolo de sua época

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Divulgação / Focus Feature

Sempre que eu assistia ao trigésimo episódio da segunda temporada de Bob Esponja — intitulado Turno Macabro — eu acabava confrontado com uma figura que era tratada com teor cômico para aliviar a tensão. Essa figura era ninguém menos do que o Nosferatu de Murnau.

Como o terror literário nunca foi meu forte, nunca tive contato com o Drácula de Bram Stoker. Logo, via o Nosferatu com uma certa distância, embora já associasse o vampirão a uma adaptação (o que eu não sabia é que não era autorizada).

Mais de um século após essa estreia clandestina, Nosferatu recusa-se a morrer. O que começou como uma obra que quase foi apagada da história por uma ordem judicial, tornou-se um dos arquétipos mais resilientes do horror.

Com o lançamento da nova visão de Robert Eggers — diretor de A Bruxa e O Farol — o público se deparou novamente com o Conde Orlok. Mas, diferentemente das franquias modernas que apenas reciclam fórmulas, cada encarnação do Nosferatu serve como um espelho de sua época e da mente de cada diretor.

Para entender o legado dessa obra, já deixo claro: não reinvento a roda. Afinal, existem mil e uma análises internet afora. Mas aqui estão as nuances que diferenciam o pesadelo de 1922, a tragédia de 1979, a metalinguagem de 2000 e o gótico de 2024.

O horror mudo que nasceu da ilegalidade

Nosferatu (1922) | Direção: F.W. Murnau

A versão original é, antes de tudo, um triunfo da estética sobre a restrição. Sem os direitos da obra de Stoker, Murnau transformou o “Conde Drácula” no “Conde Orlok” — um nome que soa amedrontador, talvez uma junção de palavras eslavas e húngaras, como Ördög (Diabo) e Vrolok (vampiro).

O que torna essa versão especial é a linguagem visual expressionista. Max Schreck não interpreta um aristocrata sedutor, mas uma praga personificada. Com orelhas pontudas, dentes de roedor e uma postura rígida, olhar para ele é sentir repulsa sem pensar duas vezes. Murnau inovou ao usar sombras reais e distorcidas para criar tensão; a silhueta da mão de Orlok sobre o coração de Ellen é, talvez, a imagem mais icônica do horror mudo.

Uma curiosidade é a de que a viúva de Bram Stoker processou a produtora e ganhou. A justiça ordenou a destruição de todas as cópias. A obra só sobreviveu porque algumas unidades já haviam sido distribuídas internacionalmente, salvando o filme da extinção.

A melancolia do monstro

Nosferatu – O Vampiro da Noite (1979) | Direção: Werner Herzog

Quase 60 anos depois, Werner Herzog revisitou a obra com uma abordagem filosófica. Com o livro já em domínio público, ele restaurou os nomes originais, mas inverteu a lógica do vilão.

O diferencial aqui é a humanização da dor. O vampiro de Klaus Kinski é uma criatura cansada. Ele não mata apenas por instinto, mas carrega o peso de uma imortalidade sem propósito. O filme tem um visual estonteante, trocando estúdios fechados por paisagens vastas e uma trilha sonora etérea. Herzog também altera o desfecho: ao contrário do original, aqui o final é cínico e pessimista, sugerindo que o mal é cíclico e inevitável.

Nos bastidores, a produção foi marcada pelo perfeccionismo caótico de Herzog, que utilizou cerca de 11 mil ratos brancos tingidos de cinza para as cenas da praga, gerando controvérsia logística e sanitária.

A ficção dentro da ficção

A Sombra do Vampiro (2000) | Direção: E. Elias Merhige

Embora não seja um remake direto, a obra de Merhige é essencial. O longa parte de uma premissa satírica: e se Max Schreck, o ator de 1922, fosse um vampiro real contratado pelo diretor?

O ponto central é a metalinguagem. Willem Dafoe entregou uma atuação brilhante (indicada ao Oscar), interpretando um monstro que tenta, sem sucesso, agir como humano. O filme desconstrói o processo de fazer cinema, borrando a linha entre a arte e o sacrifício real.

O gótico visceral

Nosferatu (2024) | Direção: Robert Eggers

Conhecido pelo horror atmosférico, Robert Eggers trouxe em 2024 uma obsessão pelo detalhe histórico e pelo folclore. Sua visão se afasta da teatralidade de Murnau para abraçar um horror gótico e ocultista.

A grande mudança narrativa está no foco em Ellen Hutter (Lily-Rose Depp). Ela deixa de ser apenas vítima para se tornar o centro de uma conexão psíquica com o vampiro. As repressões e cenas que aludem à sexualidade deixam qualquer psicanalista em deleite.

Bill Skarsgård entrega uma performance física que remete a um cadáver antigo, sem resquício de humanidade. É um filme que ilustra a sujeira do século XIX e explora o medo do desconhecido.

E com o ciclo se fecha aqui com Willem Dafoe retornando ao universo de Nosferatu nesta versão, mas agora do outro lado, interpretando o Professor Von Franz, um caçador de vampiros, criando um diálogo curioso e felizmente interessante com a sua atuação no filme de 2000.

Outro ponto é que há muitas cenas com uso de luz indireta da Lua, e que talvez pareça uma homenagem ao filme de Murnau, pois as cenas ficam azuladas e tendem ao monocromático, assim como o filme em preto e branco do diretor do Nosferatu original. Sem falar na homenagem direta da sombra da mão de Orlok.

Qual assistir?

Enquanto o Drácula de Hollywood busca a sedução, Nosferatu sempre foi sobre a repulsa e a morte. O ideal é assistir a todos, mas fica a dica:

  • Para os puristas da sétima arte: 1922.
  • Para os fãs de drama existencial: 1979.
  • Para os amantes do cinema pelo cinema: 2000.
  • Para quem busca tensão e atmosfera opressiva: 2024.

No fim, o vampiro muda de rosto, mas a sua sombra continua a mesma.

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