Sob o sol implacável que castiga a pele de um homem do campo, o Cerrado revela um mistério hipnótico. Caído ao chão, um fruto de cor vibrante e aspecto alienígena — lembra o pequi, mas carrega uma aura intergalática — atrai o olhar do trabalhador.
Ao cravar os dentes na polpa proibida, a metamorfose é imediata e dolorosa. Espinhos rompem a pele, cores se alteram e a humanidade dá lugar a uma criatura monstruosa, coberta pelas defesas naturais da fruta que o seduziu.
O pesadelo visual, que oscila entre o realismo e o sonho, é a essência de Fruit, o curta-metragem que coloca o cinema feito em Goiás em destaque no Marché du Film do Festival de Cannes em 2026.
O salto tecnológico
Dirigido por Cristiano Sousa, doutorando pela Faculdade de Artes Visuais da UFG e vice-presidente do Fantlatam (Aliança Latino-americana de Festivais de Cinema Fantástico), Fruit é o único representante brasileiro selecionado para o prestigiado Fantastic Pavilion dentro do mercado de Cannes este ano.
A obra mergulha nos gêneros do terror e horror. Ela nasceu de uma necessidade prática convertida em vanguarda estética: o uso da Inteligência Artificial (IA) para superar as barreiras de orçamento e tempo da produção tradicional.
Durante nossa conversa, mencionei a recente minissérie da HBO sobre o Titanic, intitulada As Últimas Horas do Titanic, que utilizou Inteligência Artificial para reconstruir simulações históricas do naufrágio de forma quase imperceptível. Apontei que, para quem não possui o orçamento astronômico de um James Cameron, a IA surge como uma ferramenta essencial para resgatar visões que, de outra forma, seriam inacessíveis.
Cristiano concordou prontamente, ressaltando que esse é exatamente o papel da tecnologia em sua obra. Embora tenha escrito o roteiro originalmente para atores reais (live action), ele encontrou na IA a agilidade necessária para materializar o que já estava em sua mente. “Eu sinto como se fosse uma obra minha mesmo, porque é uma ideia que saiu da cabeça”, explica o diretor, que utilizou os comandos (prompts) para dirigir o algoritmo em direção ao seu “coração” e à sua visão estética.
A identidade goiana

O filme utiliza o formato vertical e o imaginário do pequi como uma “fruta proibida” para discutir temas universais como a tentação e o enfrentamento do “monstro” interior. Nesse universo, a IA permitiu criar um ambiente de cores saturadas onde o fruto se destaca do plano, reforçando o tom de fantasia intergaláctica.
É uma narrativa sem diálogos que busca transmitir a angústia de uma transformação que pode ser tanto física quanto um mero delírio. Para o diretor, o monstro final convida à reflexão:
“Será que ele virou monstro ou será que aquilo ali foi algo dentro do imaginário, em alguma coisa que ele teve que enfrentar? É um monstro que ele luta contra si mesmo”, pontua Sousa.
Quem é Cristiano Sousa

A trajetória do diretor é marcada pela subversão de expectativas. Filho de um cineasta conservador, ele rompeu com os padrões convencionais do mercado local para fundar o Digo — Festival de Cinema da Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás. Ele conta que, no início, ouviu que “tinha que fazer filme de boi” ou focar apenas em festivais tradicionais como o FICA.
Sua incursão na IA também tem raízes sociais, afinal, antes de Fruit, ele desenvolveu um projeto que reestruturava fotos de infâncias LGBT para imaginar um passado de felicidade e aceitação, combatendo traumas históricos. Agora, em sua nova obra, ele prova que a tecnologia pode “popularizar mais essa questão do audiovisual e da arte em si”, facilitando o acesso para realizadores independentes.
“Nós temos talento, nós temos possibilidades”
Esta é a terceira vez de Cristiano no maior festival de cinema do mundo, mas a primeira como realizador selecionado para o Fantastic Pavilion. O diretor vê o momento como uma oportunidade de mostrar a força da produção goiana em grandes vitrines internacionais.
Após a projeção em solo europeu, Fruit deve seguir uma carreira em festivais internacionais por até dois anos antes de ser liberado para o público geral na internet. Enquanto isso, Cristiano Sousa planeja retornar de Cannes com novas conexões de distribuição e parcerias para fortalecer o audiovisual no Centro-Oeste brasileiro.
Paralelamente, o público goiano poderá conferir sua curadoria na 12ª edição do Digo, que acontece em junho, em Goiânia e Anápolis.
