Naquele país havia dois calendários oficiais. Os dias eram os mesmos, os meses também. A diferença estava na forma de contar o tempo.
De um lado, achavam que o país estava em reconstrução. Os problemas de hoje vinham de erros antigos, e qualquer melhora, mesmo pequena, provava que as coisas começavam a se ajeitar.
Do outro, achavam que o país ia ladeira abaixo como nunca. A culpa era de quem governava, e notícia boa só podia ser propaganda ou número maquiado.
Os dois calendários marcavam a mesma data. Nenhum dos lados aceitava que o outro pudesse estar lendo as horas direito.
No começo era só diferença de opinião, coisa de cada um. O estrago veio quando o calendário passou a decidir também o que cada pessoa aceitava enxergar.
Quando o arroz baixava de preço, um lado comemorava. O outro lembrava que a queda era pequena, que ia durar pouco, que não mudava nada no mercado. Quando o arroz subia, os argumentos trocavam de dono. Ninguém reparava.
Com a corrupção era igual, e com a justiça, e com a segurança. O mesmo ato podia ser condenado num dia e defendido no outro, conforme quem tivesse feito. Tinha gente que passava a vida apontando a desonestidade dos adversários sem nunca imaginar o que diria se o desonesto fosse um dos seus. Tinha quem exigisse liberdade para quem pensava como ele e desconfiasse da liberdade dos outros.
Todo mundo tinha princípios. Alguns eram só mais flexíveis que outros.
Na praça central ficava o relógio oficial. Durante anos ele deu conta de organizar o comércio, os encontros, o horário do ônibus. Aí os dois lados começaram a acusar o relógio de trabalhar para o inimigo. Um dizia que estava atrasado. O outro, que estava adiantado.
A prefeitura chamou técnicos, abriu a máquina e publicou um relatório. Os dois lados leram, e cada um achou lá o que já pensava antes de abrir.
Surgiram então dois relojoeiros famosos, um nas rádios de um lado, o outro na TV do lado oposto, dando entrevista todo dia. Tinham resposta para tudo, e quase nunca a mesma.
O relógio seguia funcionando.
Numa manhã, uma mulher chegou atrasada ao trabalho porque tinha ido pelo calendário errado. O patrão descontou do salário dela. Ela reclamou, mas não tinha como provar nada: o ponto da empresa seguia o relógio da praça, não o de nenhum dos grupos.
A história correu a cidade. Uns defenderam a mulher, outros disseram que ela devia ter prestado mais atenção. Quase ninguém parou para pensar que talvez ela só precisasse de um relógio que servisse para todo mundo.
Àquela altura o calendário já era quase um documento de identidade. As pessoas escolhiam amigo, assunto de mesa e em quem confiar pela versão que tinham adotado. Muitas nem lembravam por que tinham escolhido aquela. Algumas talvez nunca tivessem escolhido: nasceram numa família de um calendário, ouviram desde pequenas que o outro era perigoso e aprenderam cedo quais opiniões davam aprovação e quais faziam a mesa ficar em silêncio.
Já adultas, chamavam isso de convicção.
Numa noite de tempestade o relógio da praça parou. Sem referência, as lojas fecharam cada uma numa hora, os ônibus se perderam e uma reunião importante começou antes de metade dos convidados chegar. Os dois lados se culparam. Teve discurso, teve nota oficial, teve discussão sem fim sobre de quem era a responsabilidade.
Um funcionário velho da prefeitura, que cuidava do relógio havia décadas, subiu na torre e achou uma peça quebrada. Era só trocar.
Ninguém quis ouvir. Ele não era de nenhum dos grupos influentes, não aparecia na televisão e não tinha explicação política nenhuma. Tinha uma peça na mão.
Consertaram o relógio numa terça à tarde. No dia seguinte ele voltou a marcar a hora, os ônibus voltaram aos horários, as lojas abriram, e os calendários continuaram diferentes. Ninguém pediu desculpa. Cada lado soltou um comunicado dizendo que o conserto tinha sido mérito das suas ideias.
O velho voltou para casa sem dar entrevista.
