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O que os indecisos querem?

Segundo turno presidencial de 2026: o que as pesquisas revelam sobre quem ainda pode mudar de voto e os limites da influência dos debates.

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Para quem tem pressa

  • A incerteza vai além de quem responde “não sei”. Na BTG/Nexus, 2,9% não sabem ou não respondem, mas 8,4% admitem mudar. Na Quaest, os indicadores são 1% e 9%, respectivamente. As categorias podem se sobrepor.
  • A ausência de escolha envolve representação e rejeição. Entre os que declaram nenhum/branco/nulo ou não indicam candidato na Nexus, 42,9% dizem que nenhum os representa e 35,0% apontam rejeição aos dois.
  • O voto pouco consolidado apresenta diferenças de perfil. Jovens, pessoas de baixa renda e de menor escolaridade estão proporcionalmente mais presentes entre aqueles que admitem mudar na Nexus.
  • O conservadorismo nacional não permite inferir o perfil dos indecisos. A Ipsos-Ipec encontra forte presença de posições conservadoras em costumes, mas não as cruza com firmeza do voto.
  • O efeito do debate ainda precisa ser demonstrado. Os levantamentos analisados não isolam o impacto do confronto de 18 de outubro.

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Depois de um debate presidencial, cada lado costuma organizar seu próprio placar. Um candidato teria sido mais firme, outro teria respondido melhor, uma frase mereceria destaque, uma provocação renderia cortes nas redes sociais. O confronto de domingo, 18 de outubro, pode ser examinado por outro ângulo: quanto ele ajudou a esclarecer a escolha de quem ainda não está seguro do próprio voto? A reação dos apoiadores é uma dimensão da disputa. Compreender o eleitor que permanece em dúvida exige também observar o que acontece fora das manifestações mais entusiasmadas de cada candidatura.

Um debate oferece a oportunidade de comparar propostas, examinar respostas e avaliar o comportamento dos candidatos sob pressão. Pode reforçar convicções, estimular o comparecimento e participar da formação de uma escolha. Sua capacidade de ampliar apoio, porém, precisa ser avaliada entre pessoas cuja decisão ainda está aberta. A aprovação de quem já estava convencido informa a recepção dentro de uma base. Para compreender possíveis mudanças eleitorais, é necessário investigar o que aconteceu com as preferências e com a firmeza das escolhas dos demais.

Declarar voto não significa ter decisão tomada

As pesquisas recentes mostram por que essa distinção importa. Na BTG/Nexus, realizada entre 16 e 18 de outubro, 2,9% não sabem ou não respondem em quem votarão, enquanto 8,4% afirmam que sua decisão ainda pode mudar. Na Quaest, com entrevistas entre 10 e 13 de outubro, aparecem 1% de indecisos e 9% que admitem mudar de ideia. São perguntas sobre dimensões diferentes do voto, com categorias que podem se sobrepor. Declarar um candidato e estar seguro dessa escolha são situações distintas. Uma parcela da incerteza permanece dentro dos percentuais apresentados como intenção de voto.

Essa diferença também impede o tratamento todo voto branco ou nulo como uma escolha à espera de candidato. Na Nexus, 74,9% dos que declaram nenhum, branco ou nulo afirmam que sua decisão está tomada. Outros 25,1% admitem mudar. O espaço de movimentação eleitoral reúne, portanto, situações variadas: pessoas sem preferência declarada, eleitores que citam um nome com alguma hesitação e pessoas que ainda podem rever a decisão de não escolher nenhum dos dois. Cada situação tem um significado. Somá-las indiscriminadamente produziria uma impressão exagerada de disponibilidade para a mudança.

A falta de representação pesa na ausência de escolha

A pesquisa oferece uma pista particularmente relevante sobre o desconforto com as alternativas. Entre os 7,6% que declaram nenhum, branco, nulo ou não indicam candidato, 42,9% apontam como principal motivo o fato de nenhum dos concorrentes os representar. Outros 35,0% mencionam a rejeição aos dois. Esses resultados se referem a esse grupo específico, mas introduzem uma questão importante: a dificuldade de escolher também envolve representação e rejeição à oferta eleitoral. Conhecer os nomes que disputam a Presidência pode coexistir com a sensação de que nenhuma das opções corresponde ao que se espera de um governante.

Quem admite mudar tem um perfil próprio

O retrato de quem admite mudar também apresenta diferenças em relação ao conjunto da amostra da Nexus. Jovens de 16 a 24 anos representam 12,1% dos entrevistados e 20,9% do grupo que pode rever a decisão. Pessoas com renda familiar de até um salário mínimo passam de 20,7% na amostra para 34,9% nesse grupo. A participação de entrevistados com ensino fundamental sobe de 34,4% para 44,2%. Há maior presença proporcional de juventude, baixa renda e menor escolaridade entre os que mantêm a escolha aberta. São características observadas separadamente, sem demonstração de que estejam todas reunidas nas mesmas pessoas.

A idade mostra com clareza a importância da pergunta utilizada. Na própria Nexus, 1,8% dos jovens de 16 a 24 anos estão na categoria “não sabe/não responde”. Ao mesmo tempo, essa faixa está proporcionalmente mais presente entre aqueles que admitem mudar. O jovem pode ter uma preferência identificável e conservar dúvidas sobre ela. Pessoas sem religião representam 12,8% da amostra total e 21,6% do grupo que admite mudar. Mulheres e evangélicos, por sua vez, apresentam participação nesse grupo muito próxima à que têm na amostra total. Esses dados recomendam cuidado com retratos simplificados do eleitor indeciso.

Quanto ao vínculo político, o contraste descritivo mais evidente aparece entre os segmentos classificados como convictos e os demais perfis mencionados. Entre os simultaneamente anti-Lula e anti-Bolsonaro, 20,5% admitem mudar; entre os não polarizados, são 16,2%. Nos grupos classificados como lulistas e bolsonaristas convictos, os percentuais ficam em 3,7% e 0,8%, respectivamente. A diferença de 4,3 pontos entre dupla rejeição e não polarização, porém, não permite estabelecer uma hierarquia entre esses grupos sem bases efetivas e medidas de incerteza próprias. A expressão “não polarizado” segue a classificação da Nexus e não equivale a dupla rejeição, posição ideológica de centro ou desinteresse político.

Outros levantamentos acrescentam informações, com limites próprios. A AtlasIntel/Bloomberg reúne branco, nulo e “não sei” em uma única categoria, que soma 2,6% no total e chega a 8,0% entre jovens de 16 a 24 anos. O indicador revela maior ausência de escolha de candidato nessa faixa, mas agrega respostas diferentes. No PoderData/Aya, 2% respondem não saber em quem votar; essa resposta chega a 5% entre quem nunca frequentou a escola e a 3% entre pessoas com renda familiar de até dois salários mínimos. Os recortes de renda e escolaridade apontam, em linhas gerais, na mesma direção, mas com diferenças pequenas e bases limitadas, o que recomenda cautela. Além disso, as perguntas diferem: a Nexus mede a disposição de mudar o voto, e o PoderData, o “não sei”. O eixo etário exige uma leitura separada: os 8,0% de branco, nulo e “não sei” entre jovens na Atlas não equivalem aos 1,8% de não sabe/não responde na Nexus, nem à disposição de rever um voto já declarado.

Os níveis gerais também divergem. A categoria conjunta da Atlas soma 2,6%, enquanto nenhum, branco, nulo e não sabe/não responde somam 7,6% na Nexus. Esses agregados não são medidas padronizadas de indecisão. Há diferenças nas perguntas, nas alternativas, na coleta e nos períodos de campo; os relatórios não permitem atribuir os 5 pontos de distância exclusivamente ao método.

O conservadorismo nacional não permite inferir o perfil dos indecisos

É nesse ponto que o levantamento da Ipsos-Ipec sobre costumes precisa entrar na análise. Realizado em setembro, o estudo registra índice de conservadorismo de 0,680, numa escala de zero a um, e classifica 55% dos entrevistados com alto grau de conservadorismo nos temas considerados. O apoio à prisão perpétua para crimes hediondos chega a 78%, e à redução da maioridade penal, a 71%. A oposição à legalização do aborto alcança 74%. Existe uma presença forte de posições conservadoras nas dimensões pesquisadas, especialmente em questões penais e na discussão sobre aborto.

Esse quadro convive com diferenças entre assuntos. A pesquisa registra 51% contrários à flexibilização da posse de armas e 58% contrários ao porte. O casamento entre pessoas do mesmo sexo divide opiniões, com 41% favoráveis e 41% contrários. O eleitorado combina posições que podem aproximá-lo de discursos distintos, conforme o tema. O índice mede respostas a questões específicas de costumes e valores. Sua tradução em identificação partidária ou preferência presidencial exige outras informações, inclusive sobre o peso que cada assunto tem na decisão de cada eleitor.

O cruzamento entre conservadorismo e indecisão exige um cuidado adicional: as pesquisas foram feitas com pessoas diferentes, e o relatório da Ipsos-Ipec não relaciona seu índice à firmeza do voto presidencial. Portanto, o conservadorismo observado no país não permite estabelecer o conservadorismo dos indecisos. O contexto geral ajuda a compreender a sociedade em que a disputa acontece. O perfil específico de quem hesita depende de evidências próprias.

O título “O que os indecisos querem?” conduz, assim, a uma pergunta que os levantamentos respondem apenas parcialmente. Eles permitem identificar onde aparecem algumas formas de incerteza e registram o desconforto de parte do eleitorado com os dois candidatos. A partir desses dados, seria precipitado estabelecer uma agenda única de expectativas. Segurança pública, renda, costumes, avaliação de governo e confiança nos candidatos podem receber pesos diferentes. Os materiais analisados não oferecem o cruzamento necessário para ordenar essas prioridades especificamente entre os eleitores indecisos ou de voto pouco consolidado.

O efeito do debate ainda precisa ser medido

Também seria precipitado atribuir ao debate de domingo qualquer movimentação já registrada nesses números. A Quaest foi realizada antes do confronto. Nexus, AtlasIntel e PoderData encerraram suas entrevistas no próprio dia 18, com coleta também em dias anteriores. Eventual exposição ao programa, se houve, estaria restrita a uma parcela não identificada dessas amostras. As datas de campo não informam se houve entrevistas durante ou depois do debate, quantas foram, nem se os entrevistados o acompanharam.

O estudo de Caroline Le Pennec e Vincent Pons, denominado How do Campaigns Shape Vote Choice? Multicountry Evidence from 62 Elections and 56 TV Debates, ajuda a separar a importância da campanha do efeito de um evento específico. Na base internacional analisada, os autores estimam que entre 17% e 29% dos eleitores formam sua escolha nos dois últimos meses de campanha. Essa faixa não representa o contingente de indecisos do segundo turno brasileiro de 2026, pois se refere a outros países, eleições e a uma janela de tempo mais extensa.

Quanto aos debates, o achado vai além de um resultado médio nulo. Os autores não encontram evidência consistente de contribuição para a formação do voto nos subgrupos investigados, inclusive entre quem declarou assistir e nos perfis mais propensos a decidir perto da eleição. Também examinam primeiros debates e disputas apertadas, sem encontrar resultados robustos de consolidação do voto nesses contextos. O estudo enfraquece a suposição de que um debate necessariamente converta o eleitor hesitante. Seu resultado se refere aos indicadores e contextos estudados; não prova efeito exatamente zero em qualquer eleição nem exclui possíveis oscilações transitórias nas intenções de voto.

Os dados disponíveis deixam uma questão relevante para a leitura da reta final: há eleitores que conseguem dizer em quem votariam hoje e reconhecem que ainda podem rever essa escolha. Há também quem expresse uma distância mais profunda em relação às alternativas. O debate pode ser examinado pela maneira como contribui para esclarecer essas escolhas, oferecer elementos de comparação e tornar mais compreensíveis as consequências de cada opção. Sua relevância eleitoral se encontra também nesse espaço de dúvida, confiança e representação, cuja dimensão aparece apenas parcialmente nos percentuais de intenção de voto.

Nota metodológica: as comparações são descritivas. As margens de erro nacionais não se aplicam automaticamente aos subgrupos, e diferenças pequenas entre perfis exigem bases e medidas de incerteza próprias. Os levantamentos não constituem avaliação isolada do efeito do debate de 18/10/2026.

Fontes e Leituras:

  1. BTG/Nexus. Relatório completo da 18ª rodada, divulgado em 19/10/2026 — PDF. Campo: 16 a 18/10/2026; 2.002 entrevistas por telefone; margem informada de ±2 pontos percentuais para o total; registro TSE BR-04499/2026. Dados utilizados especialmente nas páginas 22, 35 a 43 e 56.
  2. Quaest. Relatório completo, divulgado em 14/10/2026 (PDF). Campo: 10 a 13/10/2026; 2.154 entrevistas; margem informada de ±2 pontos percentuais; registro TSE BR-08729/2026.
  3. AtlasIntel/Bloomberg. Relatório completo, divulgado em 19/10/2026 — PDF. Campo: 13 a 18/10/2026; 4.998 respondentes por recrutamento digital; margem informada de ±1 ponto percentual; registro TSE BR-02418/2026. Dados utilizados nas páginas 5, 7 e 9.
  4. PoderData/Aya. Relatório completo, divulgado em 19/10/2026 — PDF. Campo: 16 a 18/10/2026; 3.000 entrevistas por telefone/URA; margem informada de ±1,8 ponto percentual; registro TSE BR-02586/2026. Dados utilizados especialmente nas páginas 7 a 9.
  5. Ipsos-Ipec. Publicação oficial do Índice de Conservadorismo em Costumes, de 13/10/2026 e relatório completo — PDF. Campo: 9 a 13/9/2026; 2.000 entrevistas presenciais em 130 municípios; margem informada de ±2 pontos percentuais para o total. Dados utilizados especialmente nas páginas 4, 13 a 16, 28 e 30.
  6. Le Pennec, Caroline; Pons, Vincent. How do Campaigns Shape Vote Choice? Multicountry Evidence from 62 Elections and 56 TV Debates. The Quarterly Journal of Economics, v. 138, n. 2, p. 703–767, 2023.
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